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26/04/2013
REVIEW - LIVRO: SUPERDEUSES
 
 
Superdeuses
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Grant Morrison é um dos mais badalados roteiristas de quadrinhos. E isso não é de hoje. Suas tramas cheias de metalinguagem, realidades alternativas e viagens na maionese (ou nas drogas, como é mais adequado ao autor) vendem muito bem e recebem elogios até de leitores que não entendem nem metade das tramas. O que é inegável é o amor do roteirista pelos quadrinhos, principalmente pelas bizarrices das Eras de Ouro e Prata, que se tornam ainda mais estranhas quando são renovadas em suas viagens.

No livro Superdeuses: Mutantes, Alienígenas, Vigilantes, Justiceiros Mascarados e o Significado de Ser Humano na Era dos Super-Heróis (Supergods: What Masked Vigilantes, Miraculous Mutants and a Sun God from Smallville Can Teach Us About Being Human), lançado por aqui pela Editora Seoman, Morrison analisa a história dos quadrinhos de super-heróis, sua importância, os materiais que lhe influenciaram e sua própria carreira, desde o início.

A obra é uma mistura de estudo com autobiografia. Morrison disseca as principais criações de cada fase dos quadrinhos: o surgimento do Superman, Batman e os principais heróis da Era de Ouro; a renovação da DC Comics na Era de Prata, seguida logo depois pelo surgimento do Universo Marvel para valer; as tramas sombrias que dominaram as páginas das HQs, o advento da Image Comics e a dominação das adaptações em Hollywood, entre muitas outras coisas.

No início o livro é bastante didático. Morrison analisa com detalhes o surgimento dos super-heróis, expondo a importância de cada um e de seus criadores. A cada capítulo, pegamos novas informações interessantes e percebemos como cada fase dos quadrinhos influenciou o trabalho do autor. E nos deliciamos ao constatar como um profissional já foi um fanboy, daqueles que se empolgava mês a mês com determinada fase de algum personagem.

Mas a leitura fica realmente interessante quando a vida de Morrison e as publicações dos quadrinhos começam a andar lado a lado. Aí sim percebemos que temos uma biografia disfarçada de estudo. Ao contar as dificuldades de sua infância e adolescência, experiências boas e ruins, Morrison cria um elo com o leitor, deixando de ser apenas o autor, mas também um de nós, um fã que em alguns momentos preferia o mundo fantasioso das HQs ao tedioso e por vezes perigoso mundo real.

Chega a ser engraçado descobrirmos que o amalucado quadrinista era um jovem muito certinho, até careta. Pouco a pouco vemos sua entrada no cenário profissional, acompanhamos sua alegria em ver suas primeiras histórias publicadas e a surpresa em receber o primeiro cheque com muitos zeros da DC Comics.

Com o sucesso chegam as novas oportunidades para Morrison, tanto profissionais quanto pessoais. Relacionamentos, um novo lar, perdas e a exploração das drogas andam lado a lado com a carreira e as mudanças do mercado do mundo dos quadrinhos.

Conhecer a vida pessoal de um autor muda tudo o que sabíamos sobre ele. Claro, qualquer um poderia deduzir que Morrison se droga ao escrever seus quadrinhos mais experimentais, mas com esse livro desvendamos em detalhes como essas experiências, algumas até existenciais, mudaram o modo de trabalhar do escritor. Ao terminar a leitura, vemos muitas de suas obras com outros olhos, às vezes descobrindo até outros significados.

Mesmo sem ler o livro, percebemos que no início de sua carreira, Morrison era mais comportado. Como todo bom roteirista do Reino Unido e vizinhanças, era propenso a algumas bizarrices, mas nada tão exagerado como apresentaria depois, não por coincidência, no período em que entrou no mundo das drogas e num tipo de busca espiritual/existencial.

Suas experiências pessoais foram imediatamente transferidas para as páginas que escrevia e, em especial na série Os Invisíveis. É interessante notar que o próprio não tem certeza absoluta sobre o que vivenciou nestes períodos, deixando espaço para nossa interpretação.

Tal como nos gibis, o livro começa a ficar mais complexo e “viajante” nestes momentos, nos quais vemos que Morrison parece perder o foco e o rumo, e quase a própria vida num episódio um tanto perturbador.

Superdeuses é um convite para a complicada mente de Morrison e um documento singular sobre como um autor famoso foi influenciado pelo mercado por décadas, para depois se tornar ele mesmo a influência. Não só isso, é também uma rara oportunidade de conhecermos a fundo o modo de pensar de um roteirista, mesmo que às vezes isso envolva drogas pesadas que deixem tudo demasiadamente confuso.

A edição nacional, embora caprichada, deixa muito a desejar na péssima capa, e apresenta alguns erros nas traduções de nomes de personagens.

Superdeuses (1ª edição, 2012) – De Grant Morrison - Tradução de Érico Assis - 496 páginas - formato 16 x 23 cm - R$ 59,90 – Editora Seoman.

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