MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
29/04/2009
MATÉRIA: WOLVERINE - A ORIGEM SECRETA
 
 
Primeiros esboços do Wolverine, feitos por Romita Sr.
 
 
Hulk #180: primeira aparição de Wolverine. Arte de Trimpe.
 
 
Hulk #181: Wolverine contra o Hulk.
 
 
X-Men #98: primeira aparição de Wolverine sem a máscara. Arte de Cockrum.
 
 
Os personagens que inspiraram a aparência de Wolverine. Arte de Cockrum.
 
 
X-Men #98: Wolverine é de fato um mutante? Arte de Cockrum.
 
 
X-Men #97: Wolverine arruma confusão com o Ciclope. Arte de Cockrum.
 
 
X-Men #116: A primeira morte de Wolverine. Arte de Byrne.
 



Bichinho interessante esse tal de carcaju... Habitante típico de florestas geladas do Hemisfério Norte, esse pequenino mamífero onívoro (ele mede entre setenta e cento e dez centímetros) vive da caça de pequenos animais, porém quando a comida é escassa ou então quando é atacado, o carcaju não se furta a demonstrar uma agressividade e violência raras no Mundo Animal. Resumindo: caso algum dia algum de nós fique perdido em alguma floresta subpolar é melhor rezarmos para não nos depararmos com um carcaju faminto e enraivecido.

Todavia, aqui não é um sítio eletrônico dedicado a Zoologia, e sim a quadrinhos e cultura pop, e estamos falando do carcaju apenas por que esse “simpático” animalzinho serviu de inspiração para a criação de um dos maiores e mais famosos heróis da Marvel Comics, herói esse que terá a suas origens esmiuçadas aqui. Ah, falamos como é nome em inglês do carcaju? Não? Em inglês o carcaju é chamado de Wolverine! Por favor, nos acompanhem...

:: Um super-herói canadense
Nossa história começa em 1974, ano em que Roy Thomas exercia o cargo de editor-chefe da Marvel Comics. Um belo dia, olhando o gráfico de vendas, Thomas percebeu que as revistas da Marvel estavam obtendo um sucesso expressivo no Canadá, o que o levou à óbvia conclusão de que um super-herói canadense talvez incrementasse ainda mais a vendagem de gibis da Casa das Ideias no país vizinho. Ideia vai, ideia vem, o então editor-chefe da Marvel entendeu que o novo herói deveria ser inspirado em algum animal típico do Canadá, e isso o levou a dois possíveis nomes para o personagem: Badger (texugo, em português) e Wolverine. Entre essas duas opções Thomas escolheu o nome Wolverine e decidiu que tal qual o seu correspondente animal, o novo herói deveria ser pequenino e ter temperamento explosivo. Decididos os principais parâmetros sobre os quais o herói canadense seria criado, Thomas procurou o escritor e editor Len Wein e simplesmente disse para ele: “Eu quero que você crie um sotaque canadense. Eu quero que você crie um personagem canadense. E eu já tenho um nome para ele: Wolverine. Vamos lá!”. No mínimo a nossa audiência está se perguntando: por que Wein foi escolhido por Thomas para criar o Wolverine? Tudo tem a ver com sotaque...

Apesar de jovem, naquele período, Wein já havia acumulado bastante experiência profissional escrevendo roteiros das mais diferentes temáticas possíveis tanto para a Marvel quanto para a DC Comics, e um dos seus pontos fortes como roteirista era a habilidade em “escrever sotaques” ou, melhor explicando, a sua notável aptidão para criar ou desenvolver personagens estrangeiros, aptidão essa que foi demonstrada em seu trabalho como roteirista das aventuras do Irmão Vodu (Brother Voodoo), um super-herói místico oriundo do Haiti. Na visão de Thomas, essas qualidades tornavam Wein mais do que perfeito para a criação do novo herói canadense, e assim que recebeu essa tarefa, o escritor iniciou as pesquisas para dar conta dela. Nessas pesquisas ele levantou todas as características dos carcajus que citamos no começo desse artigo, e após isso ele procurou John Romita Sr. – então editor de arte da Marvel – e em parceria com o veterano artista ele concebeu o visual de Wolverine, visual esse que tinha diferenças marcantes em relação ao que o canadense apresenta hoje: a fim de ressaltar os “aspectos animalescos” do herói, a sua máscara trazia “simpáticos bigodes” e a região dos olhos e orelhas apresentavam longos contornos negros. Esboçado o visual, faltava definir as demais características do novo herói, e como os dois idiomas oficiais do Canadá são o Inglês e o Francês, Wein considerou seriamente a possibilidade de Wolverine ser franco-canadense! Conseguem imaginar o baixinho mais invocado dos quadrinhos falando com sotaque afrancesado? Graças a Deus essa ideia foi descartada e no final de tudo Wein definiu que o personagem teria as seguintes características: assim como a sua contraparte do reino animal, Wolverine teria baixa estatura e seria raivoso e impetuoso; ele seria um mutante com superforça, sentidos e agilidade proporcionais aos de um carcaju; suas principais armas seriam garras de adamantium (um fictício e indestrutível metal artificial do Universo Marvel), que estariam embutidas em luvas feitas de um tecido baseado no mesmo metal e ele teria algo em torno dos dezenove ou vinte anos de idade.

Hã, um momento... Wolverine com superforça? Garras embutidas nas luvas? E com vinte anos de idade? Esse Wolverine é um pouco diferente daquele que conhecemos nos dias de hoje, não acham? No devido momento iremos explicar as diferenças entre o Wolverine dos primeiros dias e o Wolverine dos dias de hoje, só que antes precisamos contar aqui como foi a estreia do baixinho canadense. Querem saber um pouco mais sobre isso? Então continuem lendo esse artigo, ora bolas!

:: A Primeira Aparição
Em meados de 1974 chegou nas bancas americanas o gibi Incredible Hulk #180, que trazia a história And the wind howls... Wendigo (E o vento uiva... Wendigo), escrita por Len Wein e desenhada por Herb Trimpe e Jack Abel. Nessa aventura, em uma de suas eternas andanças em busca de paz, o Hulk acabou chegando nas vastas florestas do norte do Canadá, e não demorou muito para ele arrumar confusão, já que ele se viu frente a frente com o Wendigo, uma monstruosa e poderosa criatura canibal que habita essas florestas. Assim que tomou conhecimento da presença do Gigante Verde em território canadense, as Forças Armadas locais decidiram enviar um de seus agentes para executar o Hulk ou pelo menos expulsá-lo do Canadá, e não havia ninguém mais bem talhado para a tarefa que o Arma X (Weapon X). E justamente na última página e no último quadro da história, com o “couro comendo” entre o Hulk e Wendigo, o Arma X surgiu em cena, encarando os dois monstros e se apresentando a eles pelo nome pelo qual preferia ser chamado... Wolverine!

“Você exigiu! E a Marvel o fez! Vindo dos mais distantes rincões do Canadá surge o temível e mortífero Wolverine! Mas ele é um herói – ou seria mais um novo e perigoso supervilão?” Dramáticas essas últimas frases, não é mesmo? Pois elas fazem parte do anúncio publicado em vários gibis da Marvel visando divulgar o novo personagem da editora e “esquentando o clima” para o gibi Incredible Hulk #181, que trazia a continuação de And the wind howls... Wendigo, batizada com um simples e sugestivo título: And now... The Wolverine (E agora... O Wolverine). Naturalmente, essa continuação foi constituída basicamente por um grande quebra-pau generalizado envolvendo o baixinho canadense, o Hulk e Wendigo, quebra-pau esse que no final acabou sendo vencido pelo Gigante Verde. Ah, antes que nos esqueçamos: essa histórica luta foi publicada pela última vez no Brasil em Wolverine #100, da Editora Abril, em 2000.

Talvez para a visão dos leitores de hoje essa aventura em duas partes seja ingênua e até mesmo mal-desenhada, porém ela cumpriu bem o seu objetivo, que foi apresentar aos fãs um personagem de pavio curto e até mesmo matreiro, já que durante um determinado momento da luta, Wolverine chegou até mesmo a enganar o Hulk, fazendo-se passar por amigo do “Verdão”... Mas, como essa foi apenas a primeira aparição de um novo herói, Wein não se preocupou em apresentar na história todos os detalhes que ele havia bolado para o personagem. Na opinião do roteirista existiriam outras oportunidades para mostrar melhor o jovem mutante canadense que vestia luvas de adamantium. E elas não demoraram a surgir, já que uma certa equipe mutante estava prestes a ser completamente reformulada.

:: Uma equipe internacional
 Os fãs mais novos talvez não saibam disso, mas nos anos sessenta e início dos setenta os X-Men eram uma espécie de “patinho feio” do Universo Marvel, já que mesmo tendo contado com talentos como Stan Lee, Jack Kirby, Werner Roth, Arnold Drake, Jim Steranko, Neal Adams e Roy Thomas, eles nunca tiveram por parte do público o mesmo carinho e sucesso que os demais personagens da Marvel. Tudo isso fez que no final de 1970 a produção de aventuras inéditas dos pupilos do Professor Xavier fosse suspensa e o gibi X-Men trouxesse apenas republicações de histórias antigas. Roy Thomas não se conformava com isso, e na sua cabeça uma possível reformulação da equipe talvez desse um novo brilho para os mutantes. Ora, se em sua versão original os X-Men eram adolescentes americanos, não seria interessante se uma nova versão do time fosse, por exemplo, uma equipe internacional, composta por membros oriundos dos mais diversos países e etnias? E, por acaso, uma equipe internacional não seria um ótimo chamariz para chamar a atenção do publico estrangeiro para os gibis da Marvel? Era justamente nisso que Thomas acreditava! Todos os editores e roteiristas da Marvel tinham conhecimento desses planos de Thomas, e por saber que os X-Men estavam prestes a ser revitalizados foi que Len Wein definiu que Wolverine seria um jovem mutante na casa dos vinte anos, já que uma das premissas que norteavam a série era o fato dela ser ambientada em uma escola onde o Professor Xavier treinava mutantes imberbes para combater forças malignas. Para Wein era tudo muito óbvio: se algum dia Thomas quisesse uma equipe de heróis estrangeiros, ele já teria uma opção canadense disponível para compor o time. Porém, Wein não contava com uma coisinha: no final de tudo ele foi encarregado de reformular os X-Men!

 Rapidamente Wein juntou forças ao desenhista Dave Cockrum, e juntos eles seguiram uma receita simples: pegaram alguns personagens preexistentes – no caso Wolverine, Solaris (Sunfire), Banshee e Ciclope (Cyclops) – e os juntaram a novos heróis criados a partir de esboços de Cockrum – Tempestade (Storm), Colossus, Noturno (Nightcrawler) e Pássaro Trovejante (Thunderbird). O resultado do esforço dos dois foi a aventura Second Genesis (Segunda Gênese), publicada em meados de 1975 no gibi Giant-Size X-Men #1 (no Brasil em Superaventuras Marvel #16 e X-Men Classic #1, ambas da Editora Abril). Apesar dessa HQ hoje ser considerada um clássico dos quadrinhos americanos e sua trama praticamente ser de conhecimento de todos os fãs, vamos reprisá-la rapidamente: os antigos X-Men foram sequestrados por uma entidade mutante chamada Krakoa – a Ilha Viva, e diante desse problema o Professor X se viu obrigado a viajar pelo mundo recrutando novos alunos com o propósito de resgatar seus antigos pupilos. O recrutamento de Wolverine foi extremamente fácil: o baixinho estava de saco cheio de fazer o trabalho sujo das Forças Armadas e dos Serviços Secretos canadenses e rapidamente aceitou a proposta do Professor X de se tornar na prática um agente independente.

Nessa época os leitores mais atentos e que conheciam Wolverine do gibi Incredible Hulk devem ter percebido que a máscara do herói canadense em Giant-Size X-Men #1 estava diferente daquela mostrada em sua primeira aparição. Existe uma palavra técnica que define bem essa mudança: erro! Como assim, erro? Vamos explicar... Durante um bom tempo, o genial desenhista Gil Kane foi um dos responsáveis pelas capas dos grandes lançamentos da Marvel, e quando ele fez os esboços da capa de Giant-Size X-Men #1, ele esboçou de maneira equivocada o personagem, esquecendo-se de desenhar os “bigodes” e alongando em demasia os contornos negros da máscara. Assim que recebeu a capa para finalizá-la, Cockrum percebeu isso, mas ele concluiu que o “erro” de Kane dava ao Wolverine um aspecto bem melhor. Resultado final desse “erro”: Cockrum gostou tanto do visual “errado” de Kane que ele o manteve na capa e o reproduziu em Second Genesis. Porém, não pensem que a máscara foi a única coisa que mudou para o baixinho canadense assim que ele entrou para os X-Men. Muito do que Len Wein tinha originalmente definido para o herói rapidamente caiu em desuso...

:: Estranho corte de cabelo
Os novos X-Men criados por Len Wein e Dave Cockrum tiveram uma boa acolhida do público, e a partir de X-Men #94 a série passou a trazer aventuras inéditas dos novos discípulos do Professor Xavier. Entretanto, os roteiros dessas aventuras não eram mais de autoria de Wein: cansado da burocracia do cargo, Roy Thomas abandonou a função de editor-chefe, e sobrou para Wein a “bucha” de substituí-lo. As responsabilidades do novo cargo obrigaram Wein a deixar de lado diversos trabalhos de roteirista que ele tocava, e o novo encarregado das histórias da equipe mutante passou a ser o jovem Chris Claremont (um assistente editorial em início de carreira, que vivia pedindo aos seus superiores oportunidades para escrever) que, ao lado de Cockrum deu continuidade ao projeto de desenvolver uma equipe internacional de heróis da Marvel. E de desenvolver os personagens pertencentes a essa equipe, é claro.

Devido ao seu enorme talento e a imensa facilidade com que bolava uniformes de super-heróis, Cockrum tinha carta branca para desenhar os mutantes da maneira que bem entendesse. Sendo assim, coube a ele ser o primeiro artista a retratar Wolverine sem máscara, fato esse que ocorreu no gibi X-Men #98, que trazia a aventura Merry Christmas, X-Men (Feliz Natal, X-Men, publicada no Brasil pela última vez em X-Men - Edição Histórica #1, em 2001, pela Mythos Editora). A “cara” que Cockrum deu ao baixinho canadense era no mínimo bem distinta daquela que a maioria dos super-heróis exibia: ele aparentava ter algo em torno dos trinta e cinco e quarenta anos de idade; a sua face apresentava destacadas suíças; seus cabelos negros eram levantados/arrepiados nas laterais da cabeça e seus trajes civis eram típicos de um caubói do asfalto. Aí, nossa estimada audiência perguntará: de onde Cockrum tirou a ideia para o visual civil do herói? A explicação é longa, e iremos começá-la pelo estranho corte de cabelo de Wolverine, só que para isso precisamos ir rapidinho para o ano de 1973, ou, melhor, para o século XXX.

Em 1973, Cockrum desenhava as aventuras da Legião dos Super-Heróis (Legion of Super-Heroes) para a DC Comics, e nesse trabalho ele modernizou o visual da superequipe do século XXX, dando para boa parte dos seus membros novos e vistosos uniformes. Um dos personagens modificados pelo desenhista foi Lobo Cinzento (Timber Wolf) – um herói com poderes lupinos –, e para ele Cockrum deu olhos crispados e um corte de cabelo semelhante àquele que posteriormente Wolverine apresentaria. Mas vocês acham que Lobo Cinzento foi a única inspiração visual para o canadense? Não, ainda tem mais...

Um dos passatempos de Cockrum era andar para cima e para baixo com um caderno e rascunhar super-heróis, heróis esses quase sempre advindos de sua prodigiosa imaginação. Um dos esboços do desenhista era uma heroína felina que ele apelidou de Black Cat, que por uma incrível “coincidência” também tinha um corte de cabelo praticamente igual ao de Wolverine. Curiosamente, apesar das semelhanças da Black Cat com o herói canadense, no final de tudo o visual dessa inédita heroína acabou sendo uma das inspirações e modelos para a criação de Tempestade, a nova x-man dotada de poderes climáticos. Mas não pensem que as coisas pararam no Lobo Cinzento e na Black Cat...

Outro esboço de Cockrum era uma equipe de vilões batizada de Devastators (os Devastadores), e ele chegou a oferecê-los para a DC Comics, sugerindo que eles poderiam ser eventuais inimigos da Legião. Entre os vilões desenhados pelo artista havia um com aparência semelhante a de um lobisomem, que Cockrum provisoriamente batizou com o nome de... Wolverine! Os editores da DC Comics acharam os desenhos simpáticos, mas não mostraram muito interesse na oferta do desenhista, e no início de 1974 – já trabalhando para a Marvel – Cockrum mostrou os esboços para Roy Thomas, explicando o conceito por trás de cada uma de suas criações. No caso do seu Wolverine, o artista falou que basicamente ele era um sujeito sujo e violento... Hum, esse cara é parecido com o Wolverine da Marvel, não é mesmo? Pois é... Em depoimento registrado no livro X-Men Companion (inédito no Brasil), Cockrum fala que não considera o Wolverine da Marvel uma criação sua e que provavelmente Thomas esqueceu-se da conversa que tiveram, porém ele não esconde que ficou um tanto quanto ressentido quando o personagem foi lançado. Por outro lado, apesar de ter definido os parâmetros originais do super-herói canadense, Thomas também não se considera criador dele, e sempre que pode ele confere para Len Wein e Herb Trimpe os principais méritos pela criação do Wolverine. Dito tudo isso, e após tantas explanações sobre a origem do corte de cabelo do nosso herói, vamos continuar a explorar as razões que o levaram a ter a aparência que nós conhecemos, sendo que nesse ínterim revelaremos para a nossa audiência um segredo guardado a sete chaves: a verdadeira origem secreta de Wolverine!

:: A Verdadeira Origem Secreta
Len Wein havia imaginado Wolverine como um garotão na flor da idade. Então, por que de repente, em X-Men #98, ele apareceu mais velho? A razão para isso é absolutamente prosaica: Wein simplesmente não se lembrou de informar Cockrum que o personagem foi concebido como um jovem! Ora, sem ter essa informação, o desenhista achou que o personagem teria uma aparência mais interessante justamente se tivesse uma cara mais “curtida” pelo tempo, e além do rosto mais velho, Cockrum fez com que, sem o uniforme, Wolverine vestisse chapéu e roupas de caubói porque achou que esse tipo de vestimenta combinava bem o jeitão rústico do personagem, isso sem falar que esse tipo de vestuário era absolutamente comum em algumas regiões do Canadá.

Nas cabeças de Claremont e Cockrum, a ideia de as garras de adamantium do baixinho canadense saírem de suas luvas não era interessante... Ora, se as garras saíam das luvas, qualquer fulano poderia ser um Wolverine! Isso fez com que ambos definissem que as garras de Wolverine estavam embutidas no antebraço do herói, e aí, a nossa audiência sabe como são as coisas... Uma ideia puxa outras. Ora, se as garras de adamantium estavam dentro do corpo de Wolverine, por que não fazer com que os todos os seus ossos fossem revestidos com o mesmo metal? Se todo o esqueleto do cara está revestido de metal, por que não atribuir a ele um fator de cura, algo que certamente o impediria de morrer contaminado pelo adamantium? E para que ter superforça, se na equipe mutante Colossus já fazia o papel de fortão? E, finalmente, por que não insinuar para os leitores uma origem supimpa para um herói supimpa? Aí entra um dos pontos mais obscuros da história do personagem...

Durante muito e muito tempo, a origem de Wolverine foi um dos maiores mistérios dos quadrinhos americanos. Desde a estreia do personagem, pistas sobre sua origem – algumas falsas, outras verdadeiras – foram “gentilmente” concedidas a esses fãs e para efeitos, digamos assim, “canônicos”, duas aventuras são consideradas primordiais para entender esse imbróglio: a primeira é Arma X (Weapon X), trama em treze partes de autoria de Barry Windsor-Smith, publicada originalmente em 1991 entre as septuagésima-segunda e octogésima-quarta edições de Marvel Comics Presents (e no Brasil pela última vez na edição encadernada Arma X, em 2003, pela Panini) e que mostra como Wolverine foi sequestrado por uma agência governamental secreta que, a fim de criar o operativo militar perfeito, injetou adamantium no mutante. A segunda é a minissérie em seis edições Origem (Wolverine the Origin), escrita por Paul Jenkins, Joe Quesada e Bill Jemas e desenhada por Andy Kubert. Lançada nos EUA no final de 2001 (no Brasil em três edições pela Panini, em 2002, posteriormente encadernadas), Origem mostrou de maneira detalhada a infância e juventude do herói, e revelou que ele nasceu em uma abastada família canadense cerca de cento e vinte anos atrás (ele vive até hoje graças ao seu fator de cura), e que infelizmente o surgimento dos seus dons mutantes o levou a ter uma vida trágica. Tudo bem... Provavelmente a maior parte da nossa audiência leu essas duas séries fechadas, e deve estar se perguntando: que diabos é essa tal de origem secreta do Wolverine? Vamos falar de novo do gibi X-Men #98...

Na aventura Merry Christmas, X-Men, a equipe foi atacada pelos Sentinelas (robôs criados  com o objetivo específico de caçar mutantes), e na luta que se seguiu, Wolverine é capturado. Levado à presença do Steven Lang – o cientista que comandava os robôs – o baixinho foi submetido a diversos testes, que indicaram que talvez ele não fosse mutante! Não estão entendendo nada? Ora, quando criou o personagem, Wein o definiu como um mutante, mas deixou em aberto a possibilidade dele ser um mutante, digamos assim, diferente... De repente, Wolverine poderia ser na verdade um carcaju superevoluído que atingiu uma forma muito próxima à humana! Bizarro, não acham? Claremont e Cockrum tinham conhecimento dessa ideia inicial de Wein para Wolverine e decidiram insinuá-la nessa história, e havia planos para vincular o herói ao Alto Evolucionário (High Evolutionary), um vilão da Marvel conhecido justamente por superevoluir animais. As coisas só não foram adiante por uma razão: Stan Lee! Mas que diabos o criador da Marvel tem a ver com isso?

Naquela época, o corpo editorial da Marvel fazia planos para lançar a Mulher-Aranha (Spider-Woman), e entre as ideias para a personagem que foram postas na mesa havia a opção dela ser uma aranha evoluída à forma humana. Stan Lee considerou essa ideia despropositada e de difícil assimilação para os leitores, e a vetou de maneira veemente. Ora, assim que tomaram conhecimento da posição do “chefe” sobre animais superdesenvolvidos Claremont e Cockrum decidiram deixar de lado o “Wolverine-carcaju-evoluído” e optaram pela abordagem “homem-de- origem-e-passado-misteriosos”, que durante muito e muito tempo prevaleceu, até ser derrubada pelas minisséries Arma X e Origem.

Depois de nossas explicações sobre a aparência e a origem do Wolverine, a nossa mui estimada audiência deve acreditar que Claremont e Cockrum tinham verdadeira adoração pelo baixinho canadense, não é mesmo? Errado! Na verdade, Cockrum não escondia de ninguém que o x-man favorito dele era Noturno, e Claremont tinha clara preferência pelas personagens femininas da equipe. Nessas condições, sobrou para o nosso herói um papel um tanto quanto insólito: ser o eventual alívio cômico nas aventuras dos X-Men. Esse Wolverine “bem-humorado” se revelava das mais diversas formas: ora era nas piadinhas que ele sempre fazia, ora era na sua “paixonite” pela heroína Jean Grey (conhecida na época como Fênix); ora era pelo seu pavio curto, que sempre o fazia desafiar os seus colegas de equipe – em especial Ciclope, o líder da equipe – e ora era atacando os adversários de maneira destrambelhada e muitas vezes se dando mal. O cúmulo do Wolverine “cômico” ocorreu na aventura Enter: X-Men, publicada no gibi Iron Fist #15 (no Brasil em Incrível Hulk #40, Editora Abril), escrita por Claremont e desenhada por John Byrne. Nessa história, Wolverine pensou que o apartamento da sua “musa” Jean Grey estava sendo invadido pelo super-herói marcial Punho de Ferro (Iron Fist), isso levou o baixinho canadense a enfrentá-lo, e não demorou muito para todos os X-Men serem arrastados para esse mal-entendido, que a duras penas foi desfeito.

O Wolverine “bem-humorado” era interessante e tinha a sua cota de fãs, entretanto o personagem estava longe de ser uma unanimidade. Mas a situação estava prestes a se modificar, e um dos responsáveis por essa mudança seria justamente o artista que desenhou a briga do baixinho canadense com o Punho de Ferro, o tal de John Byrne.

:: Abraçando-se na bandeira do Canadá
O trabalho de Dave Cockrum à frente da equipe mutante era venerado pelos leitores, porém dificuldades em cumprir prazos fizeram com que a partir de X-Men #108 ele fosse substituído por John Byrne. Nascido na Inglaterra e criado no Canadá, Byrne vinha chamando a atenção dos fãs nos gibis Marvel Team-Up e Iron Fist (em parceria com Chris Claremont), e tal fato, aliado ao seu belo traço realista e cheio de ação, o faziam um substituto mais do que adequado para Cockrum. Logo no início desse novo trabalho, Byrne se encontrou com Claremont para saber quais eram os planos do escritor para o título, e no meio desse bate-papo o desenhista escutou dele algumas coisas que hoje soariam surpreendentes: Claremont disse para Byrne que simplesmente não sabia o que fazer com Wolverine, e que estava pensando em tirá-lo dos X-Men!

A reação de Byrne ao desejo de Claremont de “expulsar” o Wolverine dos X-Men foi rápida: cheio de patriotismo e quase se abraçando na bandeira do Canadá, o artista disse a Claremont que era um absurdo ele querer tirar o único membro canadense da equipe mutante logo agora, quando o título passava a ser desenhado por um artista canadense! Após essa conversa, Claremont prometeu que iria rever as suas concepções em relação ao personagem e Byrne deu início a um “sinistro plano secreto” que mudaria para sempre os X-Men...

Além de desenhar, Byrne era ótimo com roteiros, e não demorou muito para ele tornar-se o co-roterista do título. Uma das consequências disso foi que Byrne tomou Wolverine como o seu favorito do grupo e fez com que lentamente as fanfarronices e o bom-humor do canadense ficassem em segundo plano e ele passasse a ser retratado de uma forma mais soturna, séria e principalmente mais destacada nas aventuras dos X-Men. Isso ficou muito claro na aventura To save the Savage Land (Para salvar a Terra Selvagem), publicada originalmente em X-Men #116 (no Brasil pela última vez na coletânea X-Men - Edição Histórica #1, da Mythos Editora): nessa história, a equipe mutante está na Terra Selvagem (uma região na Antártida que preserva características pré-históricas) enfrentando o semideus Garokk e seus asseclas, e em um determinado momento, Wolverine, Tempestade e Noturno precisam invadir a base do vilão, porém a única entrada do local está sendo vigiada por um dos soldados do semideus. Sem muito lero-lero, o herói baixinho furtivamente se aproximou do soldado e... executou-o a sangue-frio...

Para os padrões atuais dos quadrinhos, esse assassinato cometido por Wolverine não tem nada de mais, é até muito simples e discreto, uma vez que não foi mostrado o herói cravando as garras no servo de Garokk, e nem poderia ser diferente, já que naquela época a Censura não via com bons olhos cenas muito violentas. Todavia, essa cena não deixa de ser um momento histórico, já que essa foi a primeira vez em que Wolverine foi retratado matando alguém!

Mais do que um divisor de águas para o personagem e para os X-Men, de certa forma a “primeira morte” de Wolverine ajudou a abrir um pouquinho mais a porteira para o amadurecimento dos quadrinhos americanos, um processo que começou no início dos anos setenta e cristalizou-se de vez em meados dos anos oitenta. Mas a evolução do personagem não ficou restrita apenas a assassinatos consumados.

:: Dinâmica de contraste
Vocês repararam que até o momento não citamos o verdadeiro nome de Wolverine? Pois é, depois que deixou de lado o conceito do “Wolverine-carcaju-evoluído”, Claremont passou a usar a abordagem “homem-de-origem-e-passado-misteriosos”, porém o herói precisava de algum nome, não é mesmo? E se uma namorada viesse de lambuja também não seria nada mal...

Em X-Men #118 e X-Men #119 (no Brasil X-Men - Edição Histórica #1, da Mythos Editora e primeiramente em Almanaque do Hulk #9, da RGE) a equipe mutante estava no Japão enfrentando o terrorista Moses Magnum, e no meio desse conflito Wolverine conheceu Mariko Yashida, uma jovem descendente de uma nobre família nipônica e prima de Solaris, um antigo membro da superequipe. Naturalmente, não demorou muito para o baixinho canadense se apaixonar e ser correspondido pela delicada garota. Concebida por Byrne e inspirada em uma personagem homônima do romance histórico Shogun – escrito por James Clavell –, a função de Mariko era criar para o Wolverine uma dinâmica de contraste, já que não havia nada mais diferente de um sujeito tosco vindo dos rincões do Canadá do que uma nobre e educada dama oriunda da sociedade japonesa. Só que o romance entre os dois ficaria muito esquisito se ela o chamasse apenas de Wolverine ou baixinho, não acham? Justamente por isso ao despedir-se de sua amada em X-Men #120, o nosso herói revela que seu verdadeiro nome é Logan. Apenas Logan. E aí nossa querida audiência se perguntará: tem algum significado esse nome? De certa forma, sim.

Situado no na região do Yukon (no nordeste canadense) e tendo quase seis mil metros de altura, o Monte Logan é o pico mais alto do Canadá e um dos mais altos das Américas. Não se sabe se foi por sugestão de Claremont, Byrne ou mesmo de Dave Cockrum (nenhuma das partes envolvidas lembra quem teve a ideia) que o herói recebeu esse nome, mas o propósito dele é muito claro: de maneira irônica o mais baixinho de todos os heróis teria justamente o nome de uma das mais altas montanhas do mundo.

Nem mesmo o fato da minissérie Origem ter revelado que o verdadeiro nome do personagem era James Howlett fez com que o nome Logan caísse em desuso, e para todos os efeitos, os colegas, adversários e fãs de quadrinhos ainda chamam o baixinho canadense por esse nome. Mariko também chamava o herói de Logan, e entre altos e baixos eles tiveram um longo relacionamento, que terminou com o passamento dela na história Death in Family (Morte em Família), publicada em 1992 na revista Wolverine #57 (no Brasil pela última vez na coletânea Wolverine - Edição Histórica #3, da Mythos Editora), quando o nosso herói já era um dos mais importantes personagens da Marvel Comics. Mas como um personagem que quase foi deixado de lado adquiriu tanta importância e fama?

:: O mais destacado pupilo do Professor Xavier
Lembram-se do “sinistro plano secreto” de John Byrne, que tomou Wolverine como o seu x-man favorito e o fez ter mais destaque nas aventuras da equipe mutante? O apreço do desenhista e co-roteirista pelo herói “conterrâneo” foi demonstrado em várias histórias... Em X-Men #109 (no Brasil em Os Maiores Clássicos da Tropa Alfa #1, Panini) os leitores tiveram contato com o lado mais pessoal do personagem quando o super-herói canadense Vindix (Vindicator) – também conhecido como Arma Alfa – tentou obrigar o seu compatriota a retornar para o Canadá e para seu antigo emprego nas Forças Armadas canadenses; em X-Men #120 e X-Men #121 (também em Os Maiores Clássicos da Tropa Alfa #1, Panini) o governo canadense novamente tentou reintegrar Wolverine aos seus quadros, e para isso enviou a Tropa Alfa (Alpha Flight) para capturá-lo, o que levou os X-Men a enfrentarem o supergrupo oriundo do Canadá. Quase todos os alunos do Professor X foram capturados pela organização conhecida como Clube do Inferno (Hellfire Club) em X-Men #132, e coube a Wolverine resgatar seus companheiros em X-Men #133 (no Brasil em Os Maiores Clássicos dos X-Men #4, Panini), deixando um rastro de corpos no meio do caminho; e por fim, em X-Men #139 e X-Men #140 (em terras brasileiras em X-Men – Edição Histórica #3, Mythos Editora) o baixinho fez as pazes com o governo canadense e a Tropa Alfa, e de lambuja se reencontrou com Wendigo. 

O saldo de tanto destaque foi óbvio: de maneira lenta e gradual, Logan se tornou o x-man favorito de todo mundo... Até Chris Claremont passou a gostar dele, tanto que nem o rompimento da parceria com John Byrne em 1981 fez com que o baixinho canadense voltasse para o segundo plano. Muito pelo contrário! Atendendo ao clamor dos fãs, Claremont e a Marvel Comics continuaram a investir no personagem e, em 1982, Logan estrelou uma minissérie em quatro partes desenhada pelo superastro Frank Miller que foi um sucesso de público e critica (e que em maio desse ano será relançada no Brasil pela Panini no especial Eu, Wolverine). E, como sorte pouca é bobagem, o cenário dos quadrinhos americanos em meados dos anos oitenta foi extremamente propício para Wolverine, já que nesse período obras como O Cavaleiro das Trevas e Watchmen colocaram em voga um novo tipo de herói, de moral dúbia e que não tinha pudores em matar.

Em 1988 o baixinho finalmente ganhou uma série mensal somente sua, e na virada para os anos noventa a sua fama cresceu de maneira inversamente proporcional ao seu tamanho. O mais destacado pupilo do Professor Xavier; titular de várias séries mensais; estrela de inúmeras minisséries e graphic novels; personagem de desenhos animados; rostinho estampado em material escolar... O Céu parecia o limite para o Wolverine, e em 2000 a sua fama foi consolidada definitivamente quando o ator e galã australiano Hugh Jackman interpretou-o na trilogia cinematográfica dos X-Men. E pelo visto isso não é o suficiente para Logan, já que esse ano ele é o personagem principal de X-Men Origens: Wolverine, um filme todo dedicado a ele e que promete esmiuçar a sua origem para o grande público. Será que quando Len Wein recebeu de Roy Thomas a missão de criar um “sotaque canadense” ele imaginou que a sua criação seria o que é hoje? Achamos que não...

:: Hora de Agradecer
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Cláudio Roberto Basílio, ou Brodie Bruce, como também é conhecido, é pesquisador de histórias em quadrinhos e colaborador do HQM. Acesse o seu blog no endereço http://gibicomics.blogspot.com/.

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X-Men #120: Wolverine revela seu verdadeiro nome. Arte de Byrne.
X-Men #132: Wolverine em estado de fúria. Arte de Byrne.
 


 

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