MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
19/03/2009
ENTREVISTA: WILSON VIEIRA
 
 
Gringo - O Escolhido
 
 
Octopus Sfida L’Uomoragno: Octopus desafia o Homem-Aranha
 
 
Cangaceiros - Homens de Couro
 
 
Edição 38 de Tarzan, na Itália - capa de Wilson Vieira
 
 
Evolution, com arte de Fred Macedo
 
 
 
 
 
 



Prestes a completar 60 anos de idade, com mais de 30 anos de carreira, Wilson Vieira é um autêntico vencedor. Nascido em São Paulo em 1949, foi para a Itália em 1973 continuar seus estudos em História/Arqueologia, mas acabou estudando Artes no Instituto d´Arte Lorenzo de Medici di Firenze. Nessa época, trabalhou como desenhista profissional de HQs no Studio Staff di If, em Gênova, onde realizou trabalhos em títulos como La Furia del West, L´Uomoragno, FF Quattro, Tarzan, Diabolik, Hondo, Davy Crockett, El Tigre, Il Corsaro Nero, Jack, Coyote e Il Piccolo Ranger, na Sergio Bonelli Editore.

De volta ao Brasil em 1980, lecionou em várias escolas como professor de desenho artístico e HQ. Em 1985, estreou nos roteiros, com desenhos de Aloísio de Castro, publicando na revista Calafrio #26, a história "Censurado". Depois de diversos trabalhos e de lecionar em outras escolas de arte, em 2004 lançou o álbum Cangaceiros – Homens de Couro (com desenhos do mestre Eugênio Colonnese). Em conjunto com uma animação de Clóvis Vieira (de Cassiopéia), lançou em 2006, Gringo – O Escolhido, com desenhos de Aloísio de Castro. Atualmente desenvolve projetos para o Brasil e a Itália, sempre como roteirista.

Conheça um pouco mais da vida e obra deste grande artista brasileiro.

HQM: Wilson, você completará 60 anos em 2009 e já tem muitos anos de carreira. Qual foi o seu primeiro contato com os quadrinhos?
Wilson Vieira:
Exatamente, caro Carlos. 6.0 e 36 anos de estrada, caminhando pela nona arte, aqui e acolá. Bem, lembro-me de ter lido vários gibis daquela época, como O Cavaleiro Negro, Cavaleiro Fantasma, entre outros, porém o meu primeiro contato realmente com as HQs, foi vendo o meu pai desenhando daquele modo (quadriculando o desenho) e ampliando-o. Ele era muito bom nessa técnica e lembro-me de alguns de seus desenhos como Napoleão Bonaparte, Nostradamus e outros... Ali foi acesa a centelha do desenho em mim.

HQM: Em que momento você decidiu se profissionalizar? Qual o seu trabalho de estreia? Seu primeiro trabalho foi no Brasil ou no exterior?
Wilson:
Por incrível que pareça foi no exterior, mais precisamente na Itália, quando me tornei colaborador nos anos 70 do grande estúdio de HQs de Gênova, o Studio Staff di If, comandado então por Gianni Bono, um grande estudioso da nona arte mundial. Ali aprendi de tudo, desde o que era o lápis até a imagem pronta para a gráfica. O meu primeiro trabalho profissional, realmente não me recordo, pois iniciei já desenhando muito e vários personagens ao mesmo tempo, quando finalmente fui aceito como desenhista profissional, mas penso ter sido a primeira revista da série Davy Crockett, e que para o rosto do personagem utilizei a imagem do famoso ator francês Alain Dellon.

HQM: Como se deram os trabalhos para personagens mainstream na Itália, como Homem-Aranha, Tarzan, Diabolik, entre outros?
Wilson:
Sabe, hoje fazendo uma reflexão sobre aquela época, tudo acontecia normalmente, ou seja, após um longo aprendizado (como mencionei acima), acabei ilustrando (sou o primeiro desenhista brasileiro a desenhar o personagem na Europa) um álbum do Homem-Aranha intitulado em italiano Octopus sfida L’Uomoragno (Octopus desafia o Homem-Aranha), escrito magistralmente pelo expert internacional de fumetti Franco Fossati. Já o Tarzan, acabei ilustrando duas capas com o personagem (sou também o primeiro desenhista nacional a desenhar o personagem na Europa), trabalhos esses sempre executados por intermédio do Staff di If. No Diabolik, sou o pioneiro e único (até hoje) desenhista nacional a tê-lo desenhado em duas publicações. Portanto só hoje realmente estou consciente da importância que tive como artista nacional trabalhando lá fora e a marca verde-amarela que deixei impressa na Itália.

HQM: Por que você decidiu deixar os desenhos e trabalhar somente como roteirista? Em que momento teve essa decisão?
Wilson:
Acho, em meu íntimo, que não decidi “parar de desenhar”, mas tornei-me um roteirista e explico. Durante os anos que trabalhei como desenhista profissional na Itália, aprendi e executei tudo o que um desenhista ou ilustrador poderia realizar de criativo em sua arte. Daí houve essa “transformação” natural de desenhista para roteirista. Quando retornei ao Brasil em 1980, procurava um algo mais, entende? Comecei a gostar de narrar ambientes, personagens, situações, criar histórias. Sim, foi algo bem natural, sem nenhum trauma. E isso auxilia bastante os desenhistas com os quais trabalho, pois antes de passar a eles o roteiro pronto, já visualizei anteriormente todo o trabalho. E não só isso: praticamente rascunho tudo o que escrevo, para uma melhor diagramação. Ficou como ex-desenhista essa atitude, que a considero muito positiva (rs).

HQM: Atualmente, como é a produção dos seus roteiros? Você costuma enviar somente o texto, deixando o desenhista à vontade?
Wilson:
Sim, o que envio ao desenhista é somente o roteiro. Porém dou ampla e total liberdade de criação ao desenhista. Acho esse detalhe importantíssimo, ou seja, a criação deve ser compartilhada livremente entre roteirista e desenhista, visando sempre um ótimo produto final para o leitor.

HQM: Como desenhista, você trabalhou mais como capista do que com as histórias em quadrinhos propriamente ditas? Somente na Itália ou no Brasil também?
Wilson:
Ao contrário. Trabalhei muito mais como desenhista do que como capista ou ilustrador. Porém, lápis, nanquim e guache (utensílios de ponta daquela época... rs) eram utilizados quando necessários. Aliás, todos do estúdio estávamos aptos a desenhar e ilustrar. Sempre na Itália, pois a minha formação é totalmente italiana como profissional de quadrinhos e ilustrador. Quando retornei ao Brasil, fiz algumas ilustrações esporádicas para amigos italianos, como os personagens Diabolik, e Dylan Dog (que se transformou num pôster de aniversário do personagem e que foi publicado na cidade di Novi Lígure) como parte da comemoração dedicada a ele. Hoje não desenho mais, só escrevo. Mas a sensibilidade de desenhista continua à flor da pele, óbvio, e isso carregarei para sempre, paralelamente ao roteirista que sou.

HQM: A história de Gringo – O Escolhido foi produzida em 1985? Por que demorou tanto tempo para ser lançada? O que achou da repercussão quando do lançamento?
Wilson:
Na verdade, bem antes, desde quando retornei ao Brasil em 1980, eu já tinha o embrião do personagem em minha cabeça. Bem, como todos os autores de HQs nos anos 80, sofri (não só eu, como o excelente desenhista Aloísio de Castro; Clóvis Vieira – autor da animação; e Wagner Augusto, o amigo e jornalista que nos ajudou muito e acompanhou todo aquele calvário) o entrave de não encontrar uma editora para publicar. Hoje, tudo mudou muito e o grande entrave continua sendo a distribuição. E olha que o Gringo foi acompanhado de uma animação colorida e, na época, o produto foi oferecido para a Ebal, Globo e Abril – mas nenhuma teve interesse, e essa foi a causa maior da demora. Depois (muitos anos após, só em 2006) o grande amigo, jornalista e também editor Eloyr Pacheco se interessou pelo trabalho (envolvendo-se totalmente com ele, inclusive convidando excelentes artistas nacionais para colaborarem com o álbum), restaurou o álbum página por página, planejou-o editorialmente e acabei publicando pela Editora Nomad, com ótima repercussão de crítica e público, apesar de ser então completamente desconhecido pelo leitor brasileiro como autor de HQs.

HQM: Fora o álbum lançado no Brasil, existem mais histórias do personagem? Elas serão publicadas no Brasil algum dia? E na Itália? Parece que por lá você chama o conjunto de histórias de Projeto Gash? Por que?
Wilson:
Gringo – O Escolhido, foi digamos, como digo sempre, a “apresentação esboçada” desse personagem para o leitor brasileiro. Sim, tenho a intenção, e não só isso. Tenho um colaborador também, o grande artista Fred Macedo, com o qual trabalho atualmente (já publicamos na Itália, Portugal e Argentina), para desenvolvermos toda uma série (16 episódios, com 132 páginas cada), com esse personagem o qual voltei ao nome inicial: Gringo. Portanto, não será mais Gash. Todos os 16 episódios já estão roteirizados (em português e italiano, já em fase final) e começaremos, penso em um período não muito distante, a produzir (com muita calma e qualidade) essa empreitada quadrinhística, que relata a vida de um soldado unionista mestiço durante e logo após a Guerra Civil americana, ou seja, será uma verdadeira saga. A minha intenção, juntamente com o Fred, é publicarmos inicialmente aqui no Brasil, e depois o futuro dirá.

HQM: Como Gringo, Cangaceiros – Homens de Couro parece ser também do gênero faroeste, apesar de ser focado em algo que realmente aconteceu no Brasil, como a história de Lampião, ao contrário de Gringo, que se passa no velho oeste americano. Você é fã do gênero faroeste?
Wilson:
Digamos que tenho uma forte queda e facilidade pelo gênero western (já que o estudo por um longo período e possuo uma farta biblioteca sobre o tema), principalmente pelo spaghetti-western, ou seja, o western italiano, apesar que Cangaceiros - Homens de Couro (editado pelo Cluq em 2004), como você disse, seja uma proposta totalmente diferente. E por mencionar o faroeste, eu e o Fred estamos na produção de mais um novo álbum desse gênero. Aguardem.

HQM: Cangaceiros também tem mais histórias prontas? Como foi a repercussão do primeiro volume lançado no Brasil?
Wilson:
Sim, mais três. Porém, por enquanto, estão, digamos, “engavetadas ou hibernando”, e quando for o momento, serão publicadas. A repercussão foi ótima também, sendo mencionado e “estudado” em algumas universidades brasileiras e uma italiana, pois é uma proposta única, a de narrar toda a vida, não só de Lampião, como as de seus cangaceiros e do cangaço, totalmente em HQs. E principalmente, pelo Wagner Augusto, como editor, ter acreditado em minha proposta e publicado o álbum.

HQM: Você também já trabalhou para a Sergio Bonelli Editore, a casa do ranger Tex, certo? Quais foram os seus trabalhos na editora?
Wilson:
Sim, fui o primeiro desenhista brasileiro a trabalhar para a Bonelli Editore em trabalhos longos. Desenhei alguns episódios de um personagem muito conhecido por lá: Il Piccolo Ranger. Inclusive o próprio Sergio Bonelli (o qual agradeço publicamente) me mencionou em seu editorial, numa recente reedição do Tex, lá na Itália.

HQM: Você também trabalha como tradutor de quadrinhos?
Wilson:
Não exclusivamente. Em traduções de HQs, colaborei com o também amigo e editor Wagner Augusto (Cluq), na série Ken Parker, aqui no Brasil, traduzindo alguns episódios da série. Trabalho mais com traduções e versões técnicas, universitárias e outras, sempre no eixo Brasil/Itália.

HQM: Quais seus trabalhos em andamento?
Wilson:
São alguns roteiros (sempre em português e italiano), marcantes pela importância individual dos artistas brasileiros co-autores a serem publicados no Brasil, Portugal e Itália: Chasco – Na Trilha dos Abutres, álbum com 140 páginas com arte de Fred Macedo; Karoriheki, HQ com 15 páginas com arte de Adauto Silva; Clientes Exigentes, de 11 páginas, com arte de Daniel Brandão; Quem tudo quer..., de 11 páginas, com arte de Geraldo Borges; e Coulrophobia, de 8 páginas, com arte de Allan Goldman. Além disso, também pesquiso e desenvolvo atualmente um roteiro (penso que terá entre 50 e 60 páginas) intitulado Yaguar – Morte Silenciosa, que acho, atrairá a atenção do público, não só italiano como o brasileiro e português também. A HQ é ambientada totalmente na Amazônia dos anos 70, algo inusitado. Tenho também algumas HQs em desenvolvimento cujos desenhistas serão artistas italianos. Uma tentativa de levar cada vez mais o nosso talento criativo, seja em textos quanto em desenhos, para a Europa.

HQM: Quais seus futuros projetos?
Wilson:
Gringo, a série, que dará um “trabalhão” daqueles e muitos e muitos quadrinhos, em histórias curtas, médias e longas, sobre variados temas (das quais possuo um verdadeiro estoque de argumentos) e escrever, escrever, escrever...

HQM: Gostaria de deixar algum recado para os leitores, fãs que apreciam o seu trabalho e para os jovens artistas iniciantes?
Wilson:
Primeiramente gostaria de agradecer a você, caro Carlos, à Andréa e ao pessoal do HQ Maniacs, pela oportunidade e por esse ótimo “bate-papo” entre amigos, sobre um tema apaixonante e querido por todos nós: HQs. Quero agradecer aos seus inúmeros leitores, aos que me conhecem ou passarão a conhecer a partir dessa nossa entrevista e um recado simples aos jovens artistas iniciantes: acreditem, exercitem bastante e nunca desistam de seus sonhos. Certamente, antes ou depois, eles se transformarão em realidade. Eu sou um exemplo vivo de tudo isso. Acreditem!

Abraços a todos,
Wilson

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Galeria: trabalhos solo e em parceria de Wilson Vieira. Caricaturas de Wilson e Fred ilustradas por Fred Macedo.
 
Tags : Wilson Vieira, Instituto d´Arte Lorenzo de Medici di Firenze, Studio Staff di If, La Furia del West, L´Uomoragno, FF Quattro, Tarzan, Diabolik, Hondo, Davy Crockett, El Tigre, Il Corsaro Nero, Jack, Coyote, Il Piccolo Ranger, Sergio Bonelli Editore, Aloísio de Castro, Calafrio, Cangaceiros – Homens de Couro, Eugênio Colonnese, Clóvis Vieira, Cassiopéia, Gringo – O Escolhido, O Cavaleiro Negro, Cavaleiro Fantasma, Gianni Bono, Alain Dellon, HQM: Como se deram os trabalhos para personagens mainstream na Itália, como Homem-Aranha, Tarzan, Diabolik, entre outros?Wilson:, Homem-Aranha, Octopus sfida L’Uomoragno, Franco Fossati, HQM: Por que você decidiu deixar os desenhos e trabalhar somente como roteirista? Em que momento teve essa decisão?Wilson:, HQM: Atualmente, como é a produção dos seus roteiros? Você costuma enviar somente o texto, deixando o desenhista à vontade?Wilson:, Dylan Dog, Wagner Augusto, Ebal, Globo, Abril, Eloyr Pacheco, Editora Nomad, Fred Macedo, Gringo




 

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