MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
17/10/2008
ENTREVISTA: CYNTHIA CARVALHO
 
 
Gardo: o primeiro volume da Série Origens
 
 
Um dos primeiros rascunhos de Cynthia para o Leão Negro
 
 
Pepah: o primeiro álbum da nova série
 
 
Leão Negro: O Filhote, pela Meribérica
 
 
O Filhote: nova capa de Danusko Campos para a Série Origens
 
 
O Medo da Solidão: segundo álbum da nova série
 
 
Nabalar: o 4º álbum inédito da nova fase
 
 
 


Na década de 1980, uma série de tiras, produzida totalmente no Brasil, fez um considerável sucesso quando foi publicada no jornal O Globo. Embalada por esse sucesso, a série acabou ganhando um álbum publicado na Europa, que foi distribuído para diversos países.

O universo do Leão Negro, criado por Cynthia Carvalho, é considerado uma das melhores séries nacionais já produzidas em terra tupiniquins. Conheça um pouco mais sobre a autora, sobre sua criação e sobre as próximas novidades deste controverso, carismático e amado personagem totalmente made in Brazil, publicado em duas séries pela HQM Editora.

HQM: Você criou o Leão Negro ainda em sua adolescência, certo? Ele foi o seu primeiro personagem?
Cynthia Carvalho:
Ah, não. Eu tinha zilhões de personagens. Mas sempre preferi animais antropomorfizados. Antes de fazer felinóides, lembro que eu fazia equinóides. Fiz várias histórias de felinóides antes de fazer "Espadas e Garras", a saga da leoa Shebba (depois rebatizada Tchí), onde Othan surgiu, como coadjuvante.

HQM: O Ofeliano (de Almeida) foi o primeiro desenhista oficial do Leão? O personagem já havia sido desenhado por outra pessoa?
Cynthia Carvalho:
Não, só por mim mesma. E era um horror (rs).

HQM: Por uma arte antiga que vimos, parece que Othan, o primeiro Leão Negro, vivia em um mundo futurístico, devido às suas roupas e pistola de raios, lembrando um pouco a fase futurística passada pelo personagem Jonah Hex, da DC Comics. Essa era a intenção?
Cynthia Carvalho:
Na época eu estava muito influenciada por Star Wars e achava que dava samba aquela salada de naves, raios, cavalgaduras aladas e espadas.

HQM: Por que mudou? Como você concebeu o universo e o mundo atual do Leão Negro?
Cynthia Carvalho:
Quando isolei Othan da saga "Espadas e Garras", descartei esse universo e decidi situá-lo num mundo mais primitivo. E cada vez mais vou incorporando a idade média no universo dele. Sou fascinada pela antiguidade e culturas primitivas. É um mundo onde Othan se encaixa como uma luva, tem tudo a ver com ele, em sua crueza e intolerância.

HQM: Esta saga "Espadas e Garras", nunca a veremos? É a história que faz parte do universo que você descartou?
Cynthia Carvalho:
Ela já foi aproveitada parcialmente na aventura “Gardo” e em “O Mundo Subterrâneo”, ambas publicadas no volume 1 da Série Origens. Pode vir a ter outras partes aproveitadas também, mas nunca integralmente. Ela realmente faz parte do universo descartado, mas ainda tem coisas muito boas nela e que podem ser usadas.

HQM: Você diz em uma das introduções que o mundo do Leão é povoado por canídeos, como lobos, hienas, etc. Esses canídeos aparecem pouco, tanto nas histórias novas quanto nas clássicas. Os inimigos são basicamente felinos também. Isso é proposital?
Cynthia Carvalho:
Isso foi uma recuperação do universo anterior dele, onde aparecia eventualmente um canídeo antropomorfizado. Mas sempre foram poucos e raros. A idéia agora seria ampliar o mundo do Leão com outras espécies e suas curiosas características. Já tenho alguns roteiros com canídeos e hienas prontos, mas os felinos ainda são dominantes.

HQM: Você e o Ofeliano foram casados? Como você o conheceu? Ele também tem direitos na criação do Leão Negro?
Cynthia Carvalho:
Sempre tive horror ao termo "casamento". Lembro-me que eu dizia que ele era meu "companheiro" e não "marido". A gente se conheceu através do fanzine dele. Eu era uma apaixonada por HQ iniciante, e ele um apaixonado por HQ veterano. Dividimos o teto juntos por sete anos e até hoje somos bons amigos, ainda apaixonados por quadrinhos. Ele é co-autor do Leão, uma vez que definiu o visual e também investiu muito no projeto. Ele gostaria, mas não participa mais ativamente dos projetos novos por motivos alheios à vontade dele.

Você se lembra de como foi quando ficou sabendo que as tiras do Leão seriam publicadas em O Globo? E de como foi a repercussão na época?
Cynthia Carvalho:
Eu já estava com o projeto na cabeça de dar o Leão Negro para outro desenhista há tempos. Pensei em vários desenhistas brasileiros famosos e falei disso com o Ofeliano, que respondeu indignado "Obrigado pela parte que me toca!". Foi aí que eu soube que ele gostaria de desenhar o Leão e fiquei entre surpresa e cética. Quando ele fez uns rafes (rascunhos), me encantei. Mas só quando o projeto foi aprovado pelo editor dos quadrinhos do O Globo é que caiu a ficha. No começo tinha muita gente dando pitaco e direcionando o trabalho. O resultado foi uma primeira história abominável, completamente idiota e que excluí dos álbuns. Só a partir da segunda é que me deixaram mais livre e eu pude ser mais autêntica. Mesmo assim tinha bastante censura. Algumas cenas, volta e meia, tinham de ser redesenhadas e alguns textos reescritos. Mas foi bacana, um exercício de adaptabilidade. Assim que os roteiros ficaram mais quentes, começaram as cartas. A maioria elogiava e dava a maior força, dizendo que era emocionante e diferente, mas um ou outro leitor metia o pau. Chamavam Othan de imoral, indecente, etc. O editor se preocupava um pouco, mas eu só ria.

HQM: Como se deu a publicação de O Filhote pela Meribérica? Como foi a repercussão? E por que a Meribérica escolheu exatamente O Filhote para publicar? Não tiveram interesse no restante da série?
Cynthia Carvalho:
O Ofeliano conheceu o Luis Duarte, importador de livros de Portugal e dos álbuns da Meribérica. Ele fez a proposta de um álbum do Leão à encarregada em Lisboa (ele foi o grande responsável e incentivador). Foram impressos 7 mil exemplares que percorreram alguns países de língua latina (Espanha, França, países africanos). Após alguns anos foi constatado que o álbum vendera 35% da tiragem - uma boa cota. Havia a idéia de uma coleção, mas a Meribérica encerrou suas atividades no Brasil antes disso. Quem decidiu, na época, começar pela história de O Filhote fomos nós mesmos. Achávamos a mais cativante das que já estavam prontas.

HQM: Vimos em outro lugar que a nova fase do Leão Negro, as novas histórias, já era um projeto antigo seu. As histórias estavam já há muito tempo escritas? Como foi encontrar os artistas para as novas histórias?
Cynthia Carvalho:
Sou péssima em datas, mas acho que recomecei a escrever novos roteiros há cerca de uns cinco anos. O primeiro foi Pepah. Depois veio um atrás do outro e hoje já somam 18 inéditos, além dos sete já desenhados. Sabendo que o Ofeliano estava envolvido em outros trabalhos, comecei a procurar quadrinistas para contratar mesmo. Testei vários e o primeiro que aprovei foi o André Mendes.

HQM: Fora o André Mendes e o Danusko Campos, existem mais desenhistas do Leão?
Cynthia Carvalho:
Sim, tem um álbum desenhado pelo André Leal, intitulado A Vestal. Mas o Danusko é que pegou melhor o jeito do Leão. Pretendo ficar agora só com ele mesmo. Ele acabou de desenhar mais um álbum, e testou um novo traço nele.

HQM: Parece que você não gostou muito do resultado de A Vestal. Mesmo assim, esse álbum será publicado algum dia? Você tem interesse em mandar redesenhá-lo?
Cynthia Carvalho:
A Vestal ficou muito diferente do que eu esperava, mas isso não invalida o trabalho. Se houver a oportunidade, ele será publicado também, mas não será redesenhado.

HQM: Na nova fase, sabemos que existem três álbuns prontos: Pepah (Volume 1), O Medo da Solidão (Volume 2) e Histórias de Família (Volume 3), este último ainda inédito, onde você retorna ao passado, fecha uma ponta solta, e volta ao presente com mais um membro da família dos Leões, Hartan, o filho bastardo. Existe mais algum álbum desta nova fase pronto?
Cynthia Carvalho:
Sim, o que o Danusko acabou de fazer: Nabalar, o quarto álbum da nova série.

HQM: Do que se trata Nabalar?
Cynthia Carvalho:
Nabalar é a terra de Hotos, o atual companheiro de Pepah. É uma terra de leões e leoas parrudos, com costumes bem particulares. É uma aventura social de Pepah e Hotos.

HQM: A nova fase focará mais em Pepah, Kasdhan e Hartan, os filhos de Othan? Você tem intenção de trazer novas aventuras com o Leão Negro mais maduro? Ou focará somente nos filhos dele?
Cynthia Carvalho:
Othan não foi deixado de lado. Tenho aventuras já escritas dele em diversas épocas. Aliás, dele e de muitos outros. Tenho até dele adolescente. O velho Othan ainda tem muita coisa para contar. Por hora priorizo a produção da nova geração. Se o Ofeliano puder desenhar uma nova aventura, como ele pretende, será da época de Othan mais jovem.

HQM: O que você tem sentido sobre a publicação das duas séries do Leão Negro pela HQM? Qual o resultado que você tira, mesmo com o mercado na eterna crise dos quadrinhos? Eterna, pois a cada momento no mercado editorial de quadrinhos no Brasil, a situação é uma. Hoje, estamos em um período que o mercado está inchado, com vários álbuns de luxo e diversas opções de escolha, com tiragens bem menores do que havia anos atrás. O que você acha disso tudo? O que os leitores e críticos estão achando de ambas as publicações?
Cynthia Carvalho:
Eu não entendo esses preços, de como há tantas publicações tão caras. Nem eu, que coleciono, consigo comprar tudo que gostaria. Felizmente a HQM conseguiu colocar um preço ótimo nos álbuns do Leão Negro, mas mesmo assim ouço queixas acerca do valor. O leitor está duro e tem muita coisa à venda. Tenho recebido muitos elogios (muitos mesmo!) e duas críticas negativas, mesmo assim, os próprios críticos reconhecem que a crítica se aplica a apenas um detalhe. Elogios são sempre falando de como é divertido, bem desenhado, original, etc. Uma crítica foi sobre a tonalização escura do primeiro álbum e outra foi sobre eu fazer o conteúdo adulto demais e, com isso, desprezar a fatia infanto-juvenil do mercado (nem sei se isso seria de fato uma crítica).

HQM: Os tons de cinza das duas séries são feitos por você mesma? Você saberia dizer por que Pepah ficou um pouco mais carregado na tonalidade? Esse problema não acontece em O Medo da Solidão e nem em Gardo, por exemplo.
Cynthia Carvalho:
Sim, usei um processo automatizado de tonalização, que não é a mesma coisa que pintar "na mão". Mas houve um problema na impressão de Pepah sim. Houve o que nos meios gráficos se chama "ganho de ponto". Saiu muito mais escuro que o original e isso prejudicou um pouco o resultado final. Mas nada tão escandaloso da forma que um critico acabou citando. Acho que também houve "ganho de ponto" na crítica dele! (rs). Em O Medo da Solidão e Gardo os arquivos foram adaptados para o ganho de ponto e o problema se solucionou. Até acho que ficou claro demais agora! A partir de Nabalar, a tonalização deixa de ser automática e está sendo feita pelo desenhista. Está muito melhor.

HQM: Como é a produção das novas capas? O Danusko segue um layout seu? Quem faz as cores e efeitos?
Cynthia Carvalho:
Eu sempre rafeio algo e ele geralmente aproveita. Mas se ele tem uma idéia melhor, deixo-o à vontade. Tento dar a maior liberdade possível. As cores são dele, mas depois, no Photoshop, eu costumo dar uma ajustada. Às vezes até mexo no desenho, visando melhorar ainda mais o excelente trabalho de Danusko.

HQM: A série clássica foi publicada uma única vez por você de forma própria, não? Como se deu a idéia da publicação? Houve muita saída?
Cynthia Carvalho:
Por insistência do Vitor Moura, um grande instigador, é que eu resolvi remontar as tiras em gibis alternativos. Depois fiz o site, divulguei (não muito) e começaram a aparecer os pedidos. Nunca tive a preocupação em contabilizar, mas, sem muito esforço e aos poucos, vendi centenas de exemplares. Nada mal, para um gibizinho artesanal. Eu só imprimia em pequenos lotes.

HQM: Fora o universo do Leão, você tem mais algum projeto nos quadrinhos?
Cynthia Carvalho:
Tenho tirinhas de humor e algumas histórias soltas. Mas não me dão o prazer que o Leão Negro dá, então deixo na gaveta.

HQM: Quer deixar um recado para os fãs desse querido anti-herói?
Cynthia Carvalho:
Não tente fazer em casa o que ver os leões negros fazendo! (Nossa, que piada batida...).


Conheça o site do Leão Negro em www.leaonegro.com.

Conheça o catálogo de quadrinhos da HQM Editora em www.hqmeditora.com.br.

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Histórias de Família: 3º volume da nova série
 
Tags : O Globo, Leão Negro, Cynthia Carvalho, HQM Editora, HQM: Você criou o Leão Negro ainda em sua adolescência, certo? Ele foi o seu primeiro personagem?Cynthia Carvalho:, Shebba, Tchí, Othan, HQM: O, Ofeliano (de Almeida) foi o primeiro desenhista oficial do Leão? O personagem já havia sido desenhado por outra pessoa?Cynthia Carvalho:, Star Wars, HQM: Por que mudou? Como você concebeu o universo e o mundo atual do Leão Negro?Cynthia Carvalho:, HQM: Esta saga "Espadas e Garras", nunca a veremos? É a história que faz parte do universo que você descartou?Cynthia Carvalho:, Série Origens, HQM: Você e o Ofeliano foram casados? Como você o conheceu? Ele também tem direitos na criação do Leão Negro?Cynthia Carvalho:, Luis Duarte, Pepah, André Mendes, HQM: Fora o André Mendes e o Danusko Campos, existem mais desenhistas do Leão?Cynthia Carvalho:, André Leal, A Vestal, Nabalar, HQM: Do que se trata Nabalar?Cynthia Carvalho:, Hotos, Pepah




 

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