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08/07/2008
REVIEW - CINEMA: GRINDHOUSE - PLANET TERROR & DEATH PROOF
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Nos anos 90, o então desconhecido Quentin Tarantino inovou as telas com seu primeiro filme, Cães de Aluguel. Na mesma década, começou a produzir e atuar em filmes de um outro cineasta, Robert Rodriguez, na ocasião, também desconhecido. Passadas quase duas décadas, os diretores tornaram-se referência no cinema mundial com suas sempre inovadoras técnicas de filmagem e narrativa, influenciando gente como Eli Roth, de O Albergue.

Tanto Tarantino quanto Rodriguez sabiam que deviam ao cinema todo o crédito pelo aprendizado em narrativas, trilhas sonoras e no modo de contar histórias. Ambos beberam da prática de assistir filmes antes de criar seus próprios. Nunca inovaram sem base em algo previamente feito. Sendo assim, nada mais justo que Rodriguez e Tarantino homenagearem o cinema que cresceram vendo, os exploitation movies nos anos 60 e 70, ou mais especificamente, aqueles exibidos em Grindhouses.

Entende-se por Grindhouse: cinemas de pequeno porte existentes nos EUA, que exibiam na época acima citada apenas filmes de baixíssimo orçamento, sempre carregados de certas características. São características dos exploitation movies o abuso da sexualidade feminina - principalmente de latinas e negras – do machismo, carrões, zumbis (e outros monstros), assassinos, maníacos, lutas marciais e sangue, muito sangue. Uma curiosidade desta época: os exploitation movies nos Grindhouses geralmente eram exibidos em sessões duplas. Dois filmes pelo preço de um.

Mais de três décadas depois da explosão de sucessos como Blacula, Shaft e A Noite dos Mortos-Vivos, os dois grandes diretores decidiram revisitar a época com uma homenagem com um nome que lhe cai perfeitamente bem: Grindhouse

Mas os dois não dirigiram um filme juntos. Muito mais do que isso. A ambição de ambos foi tanta que cada um deles fez uma película. Rodriguez dirigiu Planeta Terror, Tarantino dirigiu À Prova de Morte. E ainda por cima, encheram o início de cada filme de trailers falsos de filmes que nunca serão (ou seriam) produzidos.

Planeta Terror
É mania de Robert Rodriguez pegar garotas que fizeram sucesso como boas moças nas séries americanas e transformá-las em sexies e matadoras mulheres, daquelas que qualquer brutamontes teria medo. Foi assim com Jessica Alba e Alexis Bledel em Sin City, e é assim com Rose McGowan, da série Charmed.

McGowan é a personagem principal de Planeta Terror. No papel de Cherry, uma dançarina decadente que anseia por ser comediante, ela precisa superar a perda de uma das pernas e fugir de uma cidade infestada por zumbis. Planeta Terror começa com Cherry fazendo uma maravilhosa dança que deixa Nancy, a personagem de Jessica Alba em Sin City, no chinelo. A atriz, até mesmo pela proposta do filme, teve que se soltar mais na dança, sem contar no caprichado (mini) figurino que usou.

A ação logo passa para um cientista daqueles bem maníacos, interpretado por Naveen Andrews, mais conhecido por sua interpretação como Sayid em Lost. Ele negocia uma arma de destruição em massa com terroristas, mas seus planos vão por água abaixo quando um comandante louco do exército, interpretado por Bruce Willis, obriga-o a disparar a arma. As pessoas começam a se transformar em zumbis e o ataque tem início. Também são focos no filme a doutora Dakota Block e o mexicano El Wray, interpretados respectivamente por Marley Shelton e Freddy Rodriguez

Uma vez que o ataque começa, a loucura toma seu lugar. O hospital local da cidade de Arnette, Texas (onde se passa a história) fica cheio e logo é destruído. A churrascaria 24 horas de JT, que serve “o melhor churrasco do Texas” (bordão que marca o personagem até o fim do filme) se transforma em abrigo dos sobreviventes, e também seu quartel-general. Tudo isso em meio a uma montagem excepcional de trilha sonora, ambientação e fotografia. Tudo acontece em uma noite interminável, com monstros inteligentes pouco interessados em fazer novos zumbis, muito mais afetados pela fome de carne humana. Uma vez que a ação começa, não para mais.

Rodriguez mostra que fez a lição de casa no estudo dos exploitation movies. Todos os clichês estão em Planeta Terror. Mas isso não faz da película um filme retrógrado. Pelo contrário. Os diálogos ruins e as mortes absurdas constróem um dos melhores filmes de zumbis da história. Cada vez que o herói El Wray diz que “nunca erra” e que JT afirma que seu “churrasco é o melhor no Texas”, cada vez que Cherry derrama uma lágrima, pode esperar por uma reviravolta.

Além de tudo, Planeta Terror é um filme assustador. Ele realmente dá medo, e realmente não é indicado para menores de 18 anos. Em uma cena em que um zumbi ataca um dos médicos do hospital, prepare o estômago. Em outra, quando Dakota Block está fugindo de um bando de mortos-vivos ainda sob o efeito de uma anestesia, vai ser difícil não olhar para trás e para os lados procurando por um dos monstros prestes a te atacar.

À Prova de Morte
Curiosamente, dos dois filmes que compõe Grindhouse, apenas À Prova de Morte concorreu ao Festival de Cinema em Cannes. Tarantino optou por fazer um filme muito mais claro que o sombrio Planeta Terror.

Em À Prova de Morte, um maníaco mata suas vítimas, sempre mulheres, em alta velocidade na estrada. Ele é um dublê, com um carro à prova de morte. Na pele do dublê Mike está Kurt Russell. Enquanto Rodriguez está mais preocupado em tirar de garotas as imagens de indefesas em seus filmes, Tarantino prefere reviver antigos astros. Foi assim com John Travolta, Pam Grier, David Carradine e agora com Russell.

Mas Quentin Tarantino não consegue em À Prova de Morte criar um filme de terror ao nível de Planeta Terror. Prefere presentear os expectadores com belas mulheres e seus pequenos shorts durante uma hora e meia na tela. Vale pela grande atuação das atrizes Rosario Dawson, de Vanessa Ferlito e de Sydney Poitier. Não o astro Sidney Poitier, e sim sua filha mais nova. O grande defeito de À Prova de Morte é ser um filme de terror de Quentin Tarantino. O diretor não conseguiu fugir dos intermináveis diálogos em suas cenas, mas que mesmo assim rendem boas tomadas. Outro defeito do diretor é não conseguir fazer um filme curto. À Prova de Morte, assim como Planeta Terror, tem apenas uma hora e meia.

O grande destaque do filme é Zoe Bell, a dublê neo-zelandesa que encara a si própria no filme. Zoe The Cat, como é conhecida, foi dublê de Uma Thurman em Kill Bill. Tarantino gostou tanto da moça que a escolheu a dedo para protagonizar À Prova de Morte. E não é que Zoe Bell surpreende? Quentin Tarantino mais uma vez escolheu uma trilha sonora única, mas deixou a desejar na montagem em si. Salvo a cena em que o dublê Mike faz suas primeiras mortes, todo o resto do filme não apresenta inovação.

A história não se desenvolve. O filme começa e uma hora e meia depois, o espectador ainda vai esperar pelo grande clímax. Se Tarantino não queria desenvolver uma história, poderia ter desenvolvido mais ação. Não se pode dizer que a perseguição entre dois carrões dos anos 70 é o ponto alto do filme. Faltou algo mais.

O grande espetáculo destruído
Grindhouse é, acima de um filme, um espetáculo. Muito mais que dois filmes exibidos em uma mesma sessão, Grindhouse é uma experiência. A película, como dito anteriormente, é repleta de trailers falsos de filmes que não serão produzidos. O músico Rob Zombie dirige um, Eli Roth, outro. Robert Rodriguez também dirigi um, o maior de todos: Machete.

Machete é um personagem criado por Rodriguez e protagonizado por Danny Trejo, um assassino mexicano em busca de vingança que usa como arma dois facões. Seu parceiro, o padre Benicio Del Toro, é protagonizado pelo eterno comediante Richard Cheech Marin, dos filmes Cheech & Chong. Em teoria, nenhum dos trailers deveria se tornar um filme de verdade. Mas, Rodriguez gostou tanto da brincadeira que vai transformar Machete em filme, que deverá ser lançado direto em DVD.

Mas isso não explica porque o filme é um espetáculo. Grindhouse tem essa característica por ambientar os espectadores no clima das Grindhouses. Quando o filme começa, uma arte bem característica dos anos 70 anuncia o início dos trailers. Ao fim dos trailers, outra arte entra anunciando a “atração principal”. 

Em ambos os filmes, os diretores usam um recurso narrativo maravilhoso. Eles pulam um espaço de tempo entre as histórias, indicado apenas pela mensagem “rolo faltando”, uma referência aos rolos onde os filmes ficam gravados para a exibição. Rodriguez utiliza melhor este recurso que Tarantino, que poderia colocar a mensagem de “rolo faltando” entre a primeira ação do dublê Mike e a segunda. A história seria melhor resolvida assim.

Os trailers também ajudam no espetáculo por serem trailers de exploitation movies, mas o recurso narrativo do “rolo faltando” ainda é mais interessante e inovador. Grindhouse é tão inovador que inspirou Eli Roth a pensar em um filme apenas com trailers de exploitation movies. Os rumores apenas começaram, mas espera-se que eles ganhem força e tornem-se verdade.

Em um balanço geral, é uma produção muito bem sucedida, mesmo a opinião dos executivos da Miramax sendo contrária. O filme fez pouco dinheiro, e voltou aos cinemas separando o bem sucedido Planet Terrora de Robert Rodriguez de À Prova de Morte, o filme que tem grande chance de um dia se tornar um sucesso pela assinatura em sua direção.

No Brasil, tudo que poderia se esperar é que os cinemas passassem Grindhouse como o grande espetáculo que é, e não como dois filmes de dois grandes cineastas divididos e lançados em datas diferentes. Mas infelizmente, foi mais ou menos o que aconteceu. Planet Terror (Planeta Terror) foi exibido no ano passado (clique aqui) e Death Proof (À Prova de Morte) continua inédito nas salas de cinema.

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