MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
30/01/2008
ESPECIAL: UM NOVO DIA PARA O HOMEM-ARANHA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

ATENÇÃO: ESTA MATÉRIA CONTÉM SPOILERS DE FATOS AINDA NÃO OCORRIDOS NO BRASIL!

O ditado é antigo, e muitas vezes não se aplica verdadeiramente. No caso de Peter Parker, o Homem-Aranha, “novo ano, vida nova” é o lema perfeito para traduzir como será sua vida em 2008.

Para um dos mais clássicos heróis dos quadrinhos norte-americanos, este ano começa com um gostinho especial, uma mistura de ódio inflamado dos fãs e de uma extremamente bem sucedida estratégia de marketing da Marvel Comics.

Tudo isso porque Joe Quesada realizou um dos sonhos mais antigos de sua carreira como editor-chefe – posto que ocupa há oito anos: acabar com o casamento de Peter Parker e Mary Jane Watson. O gordinho mais odiado das HQs (sim, ele já está superando o eterno mestre Rob Liefeld), sempre fez questão de deixar claro como interpretava o casamento do Aranha: “um erro”.

E se o demônio Mefisto foi a chave que Quesada achou para voltar a vida do Aranha há um status antes visto há mais de 25 anos (quando Peter trocou votos com Mary Jane), o caminho de Peter até o derradeiro golpe do editor começa muito antes.

Foi idéia de Quesada em 2000 criar um dos mais bem-sucedidos e coesos títulos dos quadrinhos: Ultimate Spider-Man, a primeira revista do Ultiverso (que está repaginando a história do Universo Marvel para novos leitores). Em USM, Peter Parker é mais uma vez um jovem perdedor estudande do High School estadunidense, que é picado por uma aranha que lhe concede poderes. Peter perde seu tio por um ato de ingênuidade e percebe que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Até 2007, a revista manteve a mesma equipe criativa: Brian Michael Bendis e Mark Bagley, e um número respeitável de vendas mês após mês.

Ultimate Spider-Man foi a primeira prova de que haveria outro caminho para Peter Parker. Quesada então decidiu investir mais pesado em sua cruzada contra o status do herói. J. M. Straczynski, roteirista de Amazing Spider-Man, sugeriu a Quesada que a Marvel contasse uma história com os filhos da falecida Gwen Stacy, ex-namorada de Peter. Os gêmeos, como Straza afirma constantemente, seriam filhos do Aranha, mas de última hora Quesada mudou tudo.

Ficou decidido que o eterno fracassado Peter Parker agora seria também corno. Em vida, a sempre ingênua Gwen aproveitou uma viagem de Peter ao Canadá para pular a cerca com ninguém menos que Norman Osborn, o Duende Verde. A história provou que Quesada sabe mesmo atualizar um conceito. O editor provou outro ditado, aquele que diz que mulheres com cara de santa podem enganar até o menos desavisado.

E então Peter Parker morreu e ressuscitou durante a confusa saga O Outro, que serviu apenas para trazer uma nova figura paterna para as histórias do Homem-Aranha. Tony Stark, o Homem de Ferro, deu uma nova e super tecnológica armadura para Peter, em troca de casa, comida e a identidade revelada durante a Guerra Civil.

Peter, um homem que sempre colocou a família em primeiro lugar, expôs sua querida tia May (que já faz hora extra há pelo menos 30 anos), sua linda Mary Jane e a si mesmo em troca de uma utopia idealizada por Stark. Os horrores da guerra trouxeram a Peter uma nova figura paterna, o eterno símbolo Capitão América.

Então, a tia May é acertada por um tiro, entra em coma profundo e ninguém pode salvá-la. O plot deu origem ao pequeno Back in Black, quando Peter volta a usar o uniforme negro (uma clara jogada mercadológica que coincidiu com o lançamento do terceiro filme do herói). As histórias do personagem estavam tão capengas que Quesada decidiu dar o golpe final, a saga One More Day.

Foi nela que o Aranha recebeu a proposta do demônio Mefisto: precisaria escolher entre o seu amor, “um dos mais puros existentes”, nas palavras do próprio capeta; e sua tia May, que nesse ponto das histórias do herói já deve ter uns 150 anos, ficou à beira da morte incontáveis vezes, já foi arauta de Galactus, namorada do Doutor Octopus, mãe substituta durante toda a vida, entre milhões de outras coisas.

E não é que o fracassado decidiu dar uma de bundão mais uma vez e largar a linda ruiva, fetiche de 10 entre 10 leitores de quadrinhos? (Ou você, leitor, nunca pensou “gostaria de uma ruiva dessas lá em casa”?) Pelo menos, o teioso não trocou a garota por uma loira, assim como outro bundão das HQs, Cíclope, que largou outra ruiva estonteante – a igualmente chata Jean Grey – pela igualmente fetiche Emma Frost.

O pobre Straza começou a ser bombardeado por leitores quando o fim de One More Day vazou na internet, e decidiu jogar a culpa inteiramente para Quesada. Pediu, num gesto digno de Alan Moore (que costuma fazê-lo por birra), que retirassem seu nome dos roteiros da HQ. O chefe não acatou o pedido, a revista saiu e “puff!”, os leitores oficialmente deram adeus a um casamento de mais de 25 anos.

E não foi só isso. A partir de agora ninguém mais sabe a identidade de Peter; seu melhor amigo Harry Osborn voltou a viver; sua fisiologia corporal mudou, e ele precisa mais uma vez de lançadores de teia; e sua tia parece ter rejuvenescido 50 anos, ficando agora com a singela aparência de uns 95 anos de idade.

É claro, a saga vendeu horrores e alcançou a mídia tão fortemente, senão mais, como a morte do Capitão América (uma mudança de direção muito mais honesta). Enquetes e mais enquetes surgiram na internet, e todas provaram um repúdio dos leitores em relação à atitude de Quesada. Os fãs mais xiitas, porque eles sempre existem, até começaram uma campanha. Trocariam as HQs de Peter pelas de May Parker, a Garota-Aranha.

Outros, mais bem humorados, aproveitaram uma infeliz declaração de Quesada, e estamparam uma camiseta. O que era uma saída pela tangente do editor-chefe, que possivelmente não sabe explicar o que apagar as histórias do personagem significaria em todo Universo Marvel, se tornou o bordão: “É mágica. Não precisamos explicar”. Claro, ele já foi transformado por alguns mais perspicazes em “É marketing. Não precisamos explicar”.

E então, com ou sem birra, os leitores e a imprensa especializada receberam Amazing Spider-Man #546, a primeira edição de Brand New Day, a nova fase do Aranha. Com uma nova equipe criativa, que varia a cada mês (Amazing agora é lançada três vezes por mês), a revista retoma a vida de Peter como ela era antes do casamento: sem emprego fixo, abominado pela mídia, e, principalmente, sem namorada.

A “tenebrosa” edição (como é vista por 99% dos leitores do Aranha) trouxe o competente Dan Slott (que nunca errou como roteirista na Marvel) para os roteiros e o ainda mais competente Steve McNiven (que nunca desenhou mal na Marvel) para a arte. O leitor precisa de um pouco de esforço para não pensar em 25 anos jogados fora, mas o resultado é impressionante: desde o início da interferência de Quesada no título (filhos da Gwen), nunca havia sido lançada uma história tão boa do Homem-Aranha.

Dan Slott, muito bom tanto com roteiros de ação como com os de comédia, soube trazer um clima nostálgico ao personagem. Tudo que um leitor saudosista do Aranha sempre pediu ao santo padroeiro Stan Lee está ali estampado nas 22 páginas da HQ.

A edição foi recebida de braços abertos pela imprensa, que unânime proclama: “É difícil esquecer o que aconteceu, mas Dan Slott é o roteirista perfeito para o personagem”. Difícil mesmo é não concordar com quem sabiamente escreveu e aqueles que reproduziram a frase. Como fiz dessas palavras minhas ali acima, não preciso concordar mais uma vez.

E se a revista foi muito lida e muito comentada (elogiada), significa que Quesada triunfou. Se a boa fase do personagem continuar, o editor poderá confirmar um terceiro ditado popular (este vindo da filosofia de Maquiavel): “os fins justificam os meios”.

Se Quesada maltratou por oito anos o personagem para finalmente chegar em um acerto, se foram necessários anos de desgosto dos fãs, ávidos por boas histórias, para que Peter Parker fosse deixado de lado dos mega-marketing-eventos de uma vez por todas, então finalmente os leitores devem abrir os braços para o Novo Dia do Homem-Aranha e aproveitar uma história em quadrinhos como se deve: sem levar em conta uma confusa cronologia de 40 anos, e sim apreciando boas artes e boas tramas, que nos fazem por 22 páginas esquecer todos os problemas da vida real.

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