MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
21/12/2005
MATÉRIA: AS CRÔNICAS DE NÁRNIA
 
 
As Crônicas de Nárnia
 
 
C. S. Lewis
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



No dia 12 de dezembro de 2005, tivemos a estréia nacional de "As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa", obra-prima de C. S. Lewis. Todavia, o público brasileiro praticamente desconhece a pessoa de Lewis, e poucos eram os que já conheciam esta maravilhosa fábula infantil.

Assim, para que você não venha a ser influenciado por opiniões pouco ortodoxas, ou mesmo, para que venha a adquirir um pouco mais de conhecimento sobre literatura mundial, trazemos para você esta "pequena" matéria sobre a vida do escritor, uma análise sobre suas crônicas e estilo narrativo, incluindo uma resenha sobre o filme.


:: Sobre C. S. Lewis
Clive Stapes Lewis nasceu em 29 de novembro de 1898, em Belfast, Irlanda do Norte. Aos dez anos, sua mãe faleceu e Lewis foi matriculado na escola Wynyard, a qual, posteriormente, foi carinhosamente apelidada de "Escola dos Velhinhos" ou "Belsen"¹.

Três anos depois, com problemas respiratórios, é enviado para um resorte em Malvern, na Inglaterra. Foi nesta época que o jovem Clive desertou da Igreja da Irlanda (afiliada com a Igreja Anglicana) por ateísmo, abandonando, portanto, a fé cristã. Por conta própria ingressou na Faculdade de Malvern, permanecendo nela até junho de 1913.

Em fevereiro de 1916 Lewis leu pela primeira "Phantastes"², romance de George MacDonald, o qual "batizou sua imaginação"; no mesmo ano ele realizou sua primeira viagem para Oxford a fim de realizar uma prova de conhecimento acadêmico.

De abril a setembro de 1917, Lewis foi acadêmico em Oxford, mas com a explosão da Primeira Guerra Mundial, acabou alistando-se no Exército Britânico, sendo então escalado para participar do Terceiro Batalhão de Infantaria leve de Somerset. No ano seguinte, acabou sendo ferido na Batalha de Arras. Recuperado, retornou às atividades, mas viu seu amigo e companheiro de quarto ser morto. Com isso, em 1919, Lewis publica "Death in Battle", sua primeira publicação fora das revistas escolares.

No mesmo ano, e com o fim da guerra, retorna seus estudos na Faculdade de Oxford, onde permanece até 1924. Durante os anos de faculdade, recebeu diversos prêmios, como o Primeiro de Honra ao Mérito em Grego e Literatura Latina; Primeiro entre os Grandes em Filosofia e História Antiga e Primeiro em Língua Inglesa. Após, passou a ser tutor acadêmico, continuando a receber vários prêmios pelo exercício de sua profissão.

Em 1929, Lewis tornou-se teísta, mas em 1931, após uma longa noite de conversa com dois amigos, J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson, retornou para a fé cristã. Tolkien, mais velho que Lewis, já era famoso como acadêmico e, sendo um cristão católico fervoroso, pretendia convencer seu amigo Lewis a retornar para o cristianismo. E com a ajuda de Dyson, que também era cristão, conferencista e tutor da Universidade de Reading, conseguiu seu intento.

Em 1933, Lewis convenceu alguns amigos a formar os "Inklings" (que pode ser traduzido livremente como "Grupo da Tinta"), cujos membros incluiam J.R.R. Tolkien, Warnie, Hugo Dyson, Charles Williams, Dr. Robert Havard, Owen Barfield, Weville Coghill entre outros, e que durante quase dezesseis anos, usualmente às quinta-feiras, reunia-se para ler suas obras, contos, poesias, peças, e comentá-las.

Nos anos seguintes, Lewis firmou-se como um dos gigantes intelectuais do século vinte, angariando novas homenagens e honrarias, tornando-se o mais influente escritor cristão de seus dias. Em 1.942, Lewis publica uma das mais interessantes e inovadores obras literárias, "The Screwtape Letters" (cujo título já teve péssimas traduções no Brasil, como "Cartas do Inferno" e "Cartas do Coisa-Ruim", sendo a mais atual "Cartas de um Diabo para seu Aprendiz"), onde um demônio – Screwtape, protagonista e "autor" das cartas –, escreve para seu inexperiente sobrinho – Wormwood, encarregado da missão de desencaminhar um humano: o gentleman inglês, Mr. Spike –, passando sua experiência, em um tom pedagógico e paternal.

A partir desse momento, Lewis passou a fazer também programas de rádio sobre assuntos religiosos (vinte e nove no total), tendo uma média de 60.000 ouvintes cada um.

Em 1950, Lewis finalmente pôde ver publicada a primeira das Crônicas de Nárnia: "The Lion, the Witch, and the Wardrobe" ("O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa"), que ele havia iniciado em 1939. O sucesso foi absoluto e, com isso, tivemos a continuação da publicação de sua obra, "Prince Caspian" ("Príncipe Caspian") em 1951; "Voyage of the Dawn Treader" ("A Viagem do Peregrino da Alvorada") em 1952; "The Silver Chair" ("A Cadeira de Prata") em 1953; "The Horse and His Boy" ("O Cavalo e seu Menino") em 1954; "The Magicians Nephew" ("O Sobrinho do Mago") em 1955; e "The Last Battle" ("A Última Batalha") em 1956.

Seu cargo como tutor de Literatura Inglesa em Oxford continuou até 1954, quando Lewis foi eleito por unanimidade para a Cadeira de Inglês Medieval e Renascentista da Universidade de Cambridge, posição que ele manteve até sua aposentadoria. Lewis faleceu em 1963, em sua residência em Headington, Oxford, que era apelidada de "The Kilns", uma semana antes de completar sessenta e cinco anos.


:: A amizade e as diferenças de Tolkien e Lewis
Muitos historiadores questionam a amizade de Tolkien e Lewis, pelo simples fato dos dois terem personalidades muito diferentes. Todavia, os dois eram amigos verdadeiros, integrantes dos "Inklings" e durante anos trocaram cartas, inclusive sobre os livros que cada um escrevia. Nesse sentido, Lewis sempre encorajou Tolkien a publicar seu "Silmarillion"³ e realmente, as diferenças entre os dois eram imensas.

A primeira delas era na doutrina cristã seguida por cada um. Lewis era cristão anglicano com tradição puritana, enquanto Tolkien era um cristão católico apostólico romano, dogmático e opositor ao divórcio e ao segundo casamento. É certo que o posicionamento religioso de Tolkien gerou um desconforto para Lewis, que em 1956, com cinqüenta e oito anos, casou com a divorciada jornalista e poetisa estadunidense Joy Davidman Gresham, para muitos um casamento de interesse. Tolkien também desaprovava a forma popular utilizada por Lewis para propagar a fé cristã, pois acreditava que isto concernia apenas aos teólogos.

A segunda diferença era de temperamento, pois Tolkien era um perfeccionista, meticuloso, escrevia e reescrevia seus textos, enquanto Lewis era rápido como um relâmpago. A título de ilustração, "The Pilgrim´s Regress" (O Retorno do Peregrino)4 foi escrito em uma quinzena.

Em terceiro lugar, os dois tinham diferenças de estilo artístico. Tolkien era o mestre da história alusiva, tinha uma teologia natural da imaginação, a qual, penetrando no conto, seria um veículo da Graça de Deus para o leitor. Já Lewis, apologista e evangélico, construiu em suas histórias alegorias, postes itinerários que Tolkien não apreciava.

Ilustrando e ampliando este último conceito diferencial: Tolkien retratava seus princípios cristãos, mas os deixava de maneira quase imperceptível ao leitor, que se via bombardeado por diversos outros elementos de um universo ricamente construído, como raças com línguas próprias, calendários próprios, cronologia milenar, situados em terras com definições geográficas e climáticas. Assim, apenas um leitor atento e com um profundo conhecimento bíblico poderia perceber que Aragorn, herói da trilogia do Anel, seria uma figura de Cristo, humano, mas com ascendência élfica, tinha que superar os erros de seus ancestrais, em especial, Isildur que foi tentado pelo Anel (Jesus, humano mas com ascendência divina, tinha que suportar as provações para vencer o pecado trazido pelos seus ancestrais, em especial Adão, que foi tentado pelo Diabo).

Lewis também retratava seus princípios cristãos, mas de forma mais enfática, com simbologia, signos literários próprios, mas que tinham total correlação com sua fé e com o texto bíblico. Em suas Crônicas, Lewis nos apresentou o poderoso Rei de Nárnia, Aslan, o Leão, que se sacrificou em "O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa" no lugar de Edmund, traidor de seus irmãos, e que teria que pagar por tal ato com a morte. Aslan, o Leão, é uma figura simbólica de Cristo, que é o Leão da Tribo de Judá, e que se sacrificou pela humanidade, pecadora e merecedora da morte. Aslan foi o salvador inocente que ressuscitou, derrotando a Feiticeira, assim como Jesus Cristo foi o Salvador que ressuscitou e derrotou o Diabo.

Nas Crônicas, Aslan sempre intervinha em favor dos seus, quando efetivamente necessário, ou seja, era um Rei próximo. Em O Senhor dos Anéis (e demais obras de Tolkien), Eru, o Único, não interferia diretamente, permanecendo distante, mas no momento de dificuldade enviou seus Maiar para ajudar os Homens da Terra-Média (Gandalf era um dos Maiar).


:: Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa – O Filme
Para encerrar esta matéria, uma análise sobre o filme, o qual, ao meu ver, é uma das mais belas adaptações literárias para o cinema.

As quatro crianças souberam interpretar muito bem, mas o principal destaque vai para a pequenina Gerogie Henley (Lucy), que soube cativar e passar toda a mágica da infância para a platéia. Quando ela entrou pela primeira vez em Nárnia, e pudemos ver seus olhinhos brilhando, em meio aquele lugar fantástico, encontrando com o carismático Sr. Tumnus – e James McAvoy também teve uma interpretação brilhante – foi deveras emocionante. Ela passou a ser o parâmetro da platéia para as emoções do filme: a surpresa com Nárnia, a preocupação com Aslan, a alegria da coroação.

O caráter de Edmund (Skandar Keynes) também foi muito bem retratado, uma vez que Lewis o retratou como um garoto de temperamento arredio, e que se contrapunha ao de Peter (William Moseley), sendo que o filme apenas deu um enfoque mais detalhado ao que Edmund pensava e como agia frente àquelas situações.

Tilda Swinton, que já havia atuado como o arcanjo Gabriel em "Constantine" fez uma Feiticeira impecável: ela é má, é orgulhosa, é invejosa, é enganadora e ponto. E sua luta contra Peter, intensa. Aliás, toda a batalha campal foi interessante, se bem que já estamos acostumados a elas (vide O Senhor dos Anéis, Tróia, entre outros), sendo que cada vez mais os CG (construtos de computação gráfica) se aperfeiçoam. E a voz de Liam Neeson caiu muito bem para Aslan.

Sobre o fluxo narrativo da história, posso afirmar que Andrew Adamson (mesmo diretor de Shrek) soube conduzir todos os detalhes do livro sem cansar o público. Sim, pois até mesmo os pequenos detalhes do livro foram retratados no filme, como os ratinhos roendo as cordas que amarravam o Leão, ou a caçada ao cervo branco.

Mas os aplausos devem ser mais efusivos pelo fato de que Adamson não joga em nossa cara as informações, como se a platéia fosse idiota... ou seja, o filme contraria o rumo imposto por Hollywood, onde o público parece um bando de estúpidos que não consegue pensar e refletir sozinho, necessitando de todas as informações detalhadas e "mastigadas". Exemplificando, quando o Papai Noel apareceu, ele não estava vestido como o Papai Noel clássico, mas quem presta um pouquinho de atenção e tem o mínimo de inteligência conseguia entender quem era aquele bom velhinho que deu presentes fantásticos às crianças.

No mesmo sentido, os conceitos cristãos. Eles estavam lá, sutilmente colocados. Não era um evangelismo escrachado, um catequismo obrigado, mas eram os conceitos, os princípios, a mensagem, que é pura e simples. Quem tem ouvidos, que ouça.

Encerro transcrevendo um dos vários diálogos interessantes sobre o filme, e que nos lembra a nunca esquecer nossa infância, ou abandonar a imaginação pelo racionalismo puro:

Professor: O que vocês estavam fazendo no guarda-roupa ?
Peter: O senhor não acreditaria se nós contássemos.
Professor: Experimente.



Flávio Luiz Teixeira Junior
advogado e professor de Doutrinas Cristãs

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¹ Bergen-Belsen foi o nome de um dos mais infames campos de concentração nazista, tornando-se um símbolo do Holocausto e que clamou a vida de seis milhões de judeus há sessenta anos atrás.

² "Phantastes: a Faerie Romance for Men and Women" é, como o próprio subtítulo diz, um conto de fadas para homens e mulheres. É a terra das fadas onde o narrador do conto, Anodos, aventura-se e descobre que a mesma não é o lugar de seus sonhos de infância inocente, mas um lugar ao mesmo tempo de grande beleza e imensa feiúra, onde habitam pequenas e travessas fadas e horríveis e perturbadores goblins, criativos espíritos e malévolas entidades. George Macdonald foi um presbiteriano escocês também conhecido por suas fábulas para crianças, em especial, "Princess & Curdie" (A Princesa e Curdie).

³ O Silmarillion é uma obra póstuma de J. R. R. Tolkien, compilada por seu filho, e relata as lendas da Primeira e Segunda Eras, em especial, ligadas às Silmarils, três gemas perfeitas criadas por Fëanor, o mais talentoso dos Elfos. Mas Morgoth, o Senhor do Escuro, que habitava a Terra-Média, roubou essas pedras preciosas e as engastou em sua coroa de ferro.

4 Publicado em 1.933, não muito após ter retornado para o Cristianismo, é o primeiro romance de Lewis, um retrato de sua jornada espiritual, por isso de seu subtítulo, "uma apologia alegórica da razão e romantismo cristão".

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