MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
20/08/2005
MATÉRIA: JÚLIA E DAMPYR - DUAS VISÕES DE MUNDO
 
 
Júlia #1
 
 
Júlia #2
 
 
Júlia #3
 
 
Dampyr #1
 
 
Dampyr #2
 
 
Dampyr #3
 
 
 
 
 



Júlia Kendall é uma professora de criminologia na universidade que colabora com a polícia local. Harlan Draka é o filho de um vampiro com uma mulher humana, suas aventuras começam na Iugoslávia em plena guerra civil e prometem dar a volta ao mundo, no número quatro temos uma estonteante aventura na Rússia dominada por mafiosos capitalistas.

Estes são os dois protagonistas dos mais recentes gibis italianos a chegarem no Brasil, ambos produzidos pelo estúdio Sergio Bonelli (o mesmo do popular Tex), ambas apresentam um naturalismo gráfico muito interessante, que é uma das principais características dos gibis italianos como o próprio Tex, Dylan Dog, Mágico Vento e outros. Aqui no Brasil eles nos chegam pela Mythos Editora. Mas vamos à resenha das primeiras edições.

Júlia (que tem seus traços baseados na atriz Audrey Hepburn), vive em Garden City, cidade imaginária do Estado de Nova Jersey com sua gata Toni e a simpática, divertida e tagarela Emily Jones. Ela vive entre as aulas na universidade e a colaboração com a polícia local. Mas Júlia não tem superpoderes ou armas, em sua luta contra o crime ela usa a maior e melhor arma que os seres humanos já possuíram, a inteligência.

Ela coloca à disposição da polícia seus conhecimentos da psicologia humana, buscando compreender os motivos que levam os criminosos a agir e, com base nos meticulosos cuidados da investigação psicológica desenha o perfil do criminoso da vez, e não raro surpreende a todos ao provar que o crime “não aconteceu bem como tudo levava a crer”. Estamos diante de um mergulho dentro da torturada alma do homem do século XXI. Sem dúvida uma das melhores HQs já publicadas no Brasil, afinal quem assina os roteiros é ninguém menos que Giancarlo Berardi, um dos maiores heróis de quadrinhos de toda a Europa e criador de Ken Parker.

A antagonista dos primeiros três números é Myrna Harrod, homossexual assassina, ela é um dos vilões mais complexos a dar as caras, pelo menos na maioria dos gibis que eu li ultimamente. Sem dúvida uma revista imperdível para fãs de histórias policiais.

Dampyr - O Filho do Vampiro - é uma HQ de horror e aventura. Harlan Draka é um menino que desde cedo sempre se sentiu diferente dos outros garotos, que o chamavam de "filho do Diabo" e "sangue de Bruxo", e acaba por descobrir que é filho de um vampiro.

Em plena guerra da Iugoslávia, ele enfrenta o poderoso vampiro Gorka, que é um dos Mestres da Noite, os criadores dos vampiros. Na mitologia deste personagem os vampiros são apenas escravos de seus criadores, estes por sua vez não têm origem humana, são alienígenas, apesar de isso não significar que sejam extraterrestres, poderiam ser seres de uma outra civilização que já tivesse vivido na Terra, realmente parece que esta solução a lá Lovercraft pode ser muito bem usada, mas é esperar para ver.

Nestas aventuras, os Mestres da Noite não têm a mesmas fraquezas que geralmente vemos nos filmes, apenas os vampiros humanos morrem em contato com o Sol, por exemplo. Para matar um mestre da noite é necessário usar o sangue de um Dampyr, o filho de uma humana com um Mestre da Noite, um inimigo natural, o único Dampyr em nosso planeta é Harlan. Ele terá como aliados Kurjak, um duro soldado sem bandeira, que decidiu não mais combater em guerras injustas para ajudar na salvação da humanidade, e Tesla, a única vampira (não é uma Mestra da Noite) que tomou partido da raça humana.

Dampyr é uma retomada do mais antigo mito da humanidade, não estou falando do mito do vampiro, mas do mito do filho dos deuses, nossa mitologia (o nossa aqui se refere à mitologia grega, cristã, hindu etc.), é cheia de mulheres que mantém relações com deuses, anjos ou demônios gerando um homem que mais tarde será capaz de enfrentar a tirania destas mesmas entidades em favor do homem. Mesmo que isso o leve muitas vezes a ser temido por aqueles ao qual ele quer proteger.

É justamente aqui que temos uma separação brutal entre os dois heróis, Dampyr é um herói ligado a uma visão de mundo em que o homem por si próprio não consegue dar conta de resolver seus problemas. Mesmo o anabolizado Kurjak não passa do elo fraco do trio de caça vampiros.

Já a bela Júlia, desarmada e franzina, representa o homem em sua mais nobre essência, aquela que constituiu a civilização, a ciência e a cultura sem a ajuda de deuses ou outras criaturas.

O leitor de Júlia certamente teria como sua filosofia da história aquela feita por homens, nem sempre certos, mas na maioria das vezes um batalhador e engenhoso primata que saiu das savanas africanas e está preste a conquistar Marte. O leitor de Dampyr provavelmente estaria mais sujeito a pensar em conspirações de sociedades secretas ou deuses, alienígenas ou não governando os passos do homem.

São dois gibis que apresentam maneiras diferentes de se pensar o próprio papel do ser humano neste Planeta. O homem é um ser governado por desígnios divinos e outras forças além de sua compreensão? Ou é responsável por seus atos e mesmo fisicamente frágil pode usar sua inteligência para dominar ou libertar? Seja lá qual for sua resposta, o certo é que você vai adorar estas duas revistas.


Edgar Indalecio Smaniotto
filósofo, astrônomo amador, mestrando em Ciências Sociais pela Unesp de Marília
edgarsmaniotto@yahoo.com.br


Nota do HQM: na época em que essa coluna foi escrita, o nome do fumetti Júlia ainda não havia sido mudado. Devido aos romances homônimos lançados pela Nova Cultural, a Mythos optou em alterar o nome da revista da heroína para J. Kendall: Aventuras de uma Criminóloga. Já Dampyr, que estreou no Brasil em setembro de 2004, teve sua última edição lançada neste mês, a de número 12, após um ano de publicação.

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