MATÉRIAS/REVIEWS
 
  
 
27/12/2004
MATÉRIA: ATLAS/SEABOARD - A GRANDE EDITORA QUE NÃO DEU CERTO
 
 
Planet of Vampires
 
 
The Destructor
 
 
Weird Suspense featuring The Tarantula
 
 
Scorpion, de Howard Chaykin
 
 
Devilina
 
 
Página de publicidade dos quadrinhos da Atlas
 
 
The Grim Ghost
 
 
The Brute
 


Em 1939, Martin Goodman, dono da modesta editora de pulps magazines Timely Publications, decidiu investir em comic books, lançando alguns sensacionais super-heróis, como: Tocha Humana, Namor e Capitão América. Nos anos 1950, como todo mundo, enveredou por revistas de faroeste, terror e romance, utilizando a mão-de-obra de vários estúdios sob o selo genérico “Atlas”. A partir de 1961 – com o sucesso estrondoso do gibi Fantastic Four –, atendeu à sugestão de seu editor-chefe Stan Lee, e sua empresa passou a se chamar “Marvel Comics”, a maior editora americana de quadrinhos de todos os tempos! Mas Goodman ainda não estava satisfeito... No auge da “Marvelmania” em 1968, Martin Goodman decidiu vender a Marvel para a Perfect Films, tornando-se o mais novo multimilionário americano do ramo editorial. Ainda assim, fez um acordo para continuar como consultor durante certo tempo, quando então, seu filho Charles “Chip” Goodman assumiria o comando. Tudo isso, porque Goodman não queria que Stan Lee, assumisse a presidência da companhia depois de sua saída. Apesar de tudo que Lee fizera pela Marvel durante todos aqueles anos, Goodman talvez, se ressentisse do fato de seu próprio filho jamais ter firmado-se como um grande homem de negócios. Na realidade, Chip não passava de um bon vivant, então, quem sabe, com essa imposição, o pai não conseguiria dar um rumo ao rapaz, correto? Mas não deu certo, pois, em 1972, a Perfect Films, que agora se chamava Cadence Industries (uma das inúmeras empresas da família Rockefeller – que dizem, é ligada a um certo movimento iluminista de dominação global), preteriu Chip em favor da experiência editorial e ímpeto criativo de Lee, o que deixou Goodman deveras magoado com seu antigo editor-chefe (de forma injusta, vamos ser francos...). Assim, enquanto Stan Lee assumia a função de publisher, Goodman já planejava formar uma outra editora, a Seabord Publishing, que viria a ser conhecida por seu selo de quadrinhos “Atlas” (lembrando o selo genérico de sua antiga editora nos anos 1950, antes que assumisse o nome “Marvel”, definitivamente). A imprensa deu destaque ao fato, e o Philadelphia News chegou a classificar o nascimento da Atlas/Seaboard como “a terceira Era de Ouro” (a segunda, de acordo com o autor do artigo, teria sido o surgimento dos heróis Marvel na década anterior). Parecia haver estática no ar, e o fandom ficou agitado com a possibilidade de mais uma grande editora surgir no mercado para concorrer com as poderosas Marvel e DC, dividindo o monopólio das mesmas e abrindo espaço para novas vertentes criativas. O negócio realmente esquentou quando Goodman, em uma de suas primeiras medidas, convidou Larry Lieber, irmão mais novo de Stan para ser seu editor-chefe, configurando-se aí, um verdadeiro “ato de vingança” contra a Cadence e a Marvel (e a Stan Lee, é claro). A estratégia de Goodman para atrair os leitores, era tentar repetir o mesmo espírito das revistas de sua antiga editora, criando títulos e personagens à semelhança dos Marvels. As capas, inclusive, apresentavam o mesmo layout dinâmico perpetrado por Jack Kirby nos anos 1960, e vinham até com uma tarja sobre o logo com os dizeres “Atlas Comics” – referência direta à marca “Marvel Comics Group”. Vale lembrar que, enquanto Alan Moore, com seu projeto “1963” (lançado pela Image em 1993), pretendia apenas homenagear aqueles gibis legais de sua adolescência, a Atlas, por sua vez, levava esse negócio bem mais a sério. Prova disso, é que Goodman não mediu esforços para conseguir os melhores talentos daquele período contratando, a peso de ouro, grandes nomes da indústria em base freelance: Rich Buckler, Neal Adams, Sal Amendola, Wally Wood e Steve Ditko, entre outros. Em seguida, escalou Jeff Rovin, um ex-funcionário das redações DC e Warren para comandar a linha de magazines preto-e-branco da Atlas. Goodman queria também competir com a Warren, que fazia escola com seus ótimos títulos (Creepy, Vampirella e Eerie) e acreditou que a experiência de Rovin nessa área poderia lhe ser útil. Goodman, que sempre fora contrário aos discursos sindicalistas de Neal Adams na ACBA (Academy of Comic Book Arts), mudou de idéia e prometeu uma política de retorno de originais aos artistas (prática inexistente até então), bem como a reserva dos direitos de criação dos personagens aos autores. Alguns até lembram que Howard Chaykin, entusiasmado, ficava na porta da Marvel tentando convencer os desenhistas que passavam por lá a dobrarem a esquina e irem para os escritórios da Atlas. Essas medidas foram apelidas por outras editoras de “táticas sujas”, motivando Carmine Infantino, chefão da DC na época, a redigir um memorando com vários benefícios a todos os colaboradores da casa, mas com uma adenda: eles teriam que trabalhar única e exclusivamente para a DC Comics. Entre 24 de junho de 1974, quando a Atlas oficialmente deu início às suas atividades, até o começo do ano seguinte, foram lançados diversos títulos de quadrinhos, revistas masculinas, cinema e de palavras-cruzadas – tática editorial escancarada de tomada de posição às prateleiras com caráter intimidante à concorrência – que se constituiu, entretanto, no primeiro de vários enganos “mortais” de Goodman. Outro deles, com certeza, foi dar total liberdade para Rovin em seus títulos. Não que o moço não fosse competente, mas em seu afã de querer experimentar novas fórmulas nos gibis, levando os heróis a níveis de violência e sadismo nunca antes vistos em quadrinhos, praticamente os igualou aos vilões. Michael Fleisher foi um dos principais roteiristas da Atlas contratado por Rovin e, por vir de uma polêmica passagem nas histórias do Espectro (Spectre), na revista Adventure Comics da DC, ganhou “carta branca” para produzir histórias densas, carregadas demais! Por exemplo: - The Brute (o Bruto) – uma versão para o Hulk, com arte de Mike Sekowsky –, chegou a matar uma criancinha; - Tarântula – era uma espécie de aranha-humana que comia pessoas. Eca! - Grim Ghost (Fantasma Sinistro – pode ser?) – tinha como “patrão” o próprio capeta e por aí vai... Se, em essência, as revistas e os personagens pareciam com as da Marvel, na prática, o universo da Atlas era por demais sombrio, o que chamou a atenção do Comics Code – que por várias vezes teve de interceder junto à editora, deixando Goodman ressabiado. Em meio a vários títulos de grande potencial “burramente” aproveitados, também surgiram alguns plágios descarados como: - Planet of Vampires, uma ficção “cover” do filme Omega Man estrelado por Charlton Heston; - The Cougar, inspirado no seriado Kolchak: The Night Stalker (“Demônios da Noite” aqui no Brasil – quem lembra?). Na verdade, Rovin queria licenciar tais seriados para produzir versões em quadrinhos, mas Goodman achava o processo muito caro, daí, veio com a idéia de surrupiá-los (o que, convenhamos, é uma das táticas mais antigas da indústria...). Nem por isso, esses gibis da Atlas eram ruins, muito pelo contrário! Alguns deles, inclusive, destacaram-se dos demais e são altamente recomendáveis, ainda hoje: - Scorpion – por Howard Chaykin (com assistência “nota 10” de Berni Wrightson e Mike Kaluta). Rovin queria licenciar o Spider (personagem dos pulps), mas... - Destructor – um super-herói adolescente/revoltado, com histórias voltadas (ou intencionadas) para o público do Homem-Aranha; inclusive com arte de Steve Ditko (criador visual do cabeça-de-teia), arte-final de Wally Wood (nos dois primeiros números), roteiro de Archie Goodwin e capas de Larry Lieber. Foi um dos títulos da Atlas que mais durou: quatro edições. A quarta, foi roteirizada por Gerry Conway; - Devilina, Ghotic Romances, Weird Tales of the Macabre e Thrilling Adventure Stories – magazines p/bs ao estilo das publicações da Warren. O destaque vai para Gothic Romances, uma boa sacada de Goodman, que misturou horror com histórias de romance. Todavia, uma empresa que já nasce com um sentimento de revanchismo tão acentuado e onde seus personagens são tão ambíguos quanto aos seus princípios morais, só poderia ter um clima de “3a Guerra Mundial” em sua redação, não é mesmo? Goodman nem esperou pelo relatório da distribuidora – que acusaria uma média de vendas baixíssima de 13% (quando o ideal de sobrevivência é de um mínimo de 25%) – e mandou cancelar todos os títulos, que estavam em suas segundas, terceiras ou quartas edições – deixando as séries sem um fim –; enquanto Rovin e Lieber não se entendiam de jeito nenhum (também, onde já se viu ter duas pessoas ocupando a função de editor-chefe?). Por fim, todo mundo reclamava da apatia de Chip que, bem... não estava nem aí! Em janeiro de 1975, logo após Goodman ter exigido que só contratassem roteiristas e desenhistas oriundos da Marvel, Rovin pediu as contas. Lieber já aguardava o pior e vivia se entupindo de Valium a fim de aplacar sua ansiedade. Sem serviço, costumava ligar para a secretária de Martin para saber se a editora ainda estava no ramo. Essa situação alarmante atingiu níveis gritantes de surrealismo quando alguns profissionais como Terry Austin, Russ Heath e Walt Simonson foram cobrar a devolução de seus originais e a recepcionista lhes garantiu que a editora jamais havia publicado quadrinhos (será que o Chip a orientou a dizer isso?). Entre as promessas não-cumpridas, vale destacar aquela que cedia os direitos dos personagens aos autores. Os últimos quadrinhos saíram em outubro de 1975 (data de capa). Logo depois, Goodman decidiu se aposentar, mudando-se para a Flórida, onde faleceu no final dos anos 1980. Chip continuou editando a revista Swank (uma versão fraquinha da Playboy) por mais alguns anos até que sua morte foi noticiada em meados da década passada. Lieber voltou a desenhar para seu irmão – primeiro para as tiras do Incrível Hulk, e atualmente, para as tiras do Homem-Aranha. Já Rovin, mexeu pouco com HQs depois do advento da Atlas, tornando-se mais conhecido como escritor de livros temáticos (The Encyclopedia of Superheroes). Em fevereiro de 1987, escreveu um artigo de impacto a respeito da Atlas para o Comics Journal, intitulado “Como não administrar uma editora de quadrinhos”. Num curto espaço de um ano, ninguém mais se lembrava da Atlas/Seaboard nos Estados Unidos. Suas revistas eram encontradas aos montes em promoções de lojas. Ninguém se esforçou em tentar resgatar qualquer um de seus personagens – que continuam desconhecidos para as novas gerações de leitores. Aqui no Brasil, pelo menos, as histórias de horror de Tales of Evil e dos personagens Morlock 2001 e Bog Beast foram publicadas em edições de Capitão Mistério da Bloch em 1982.

A Atlas/Seaboard foi, portanto, um furacão que passou pelo mundo dos comics, deixando um legado incompleto e pouco apreciado pelos leitores! Se nem tudo saiu como devia, se as motivações de seus comandantes eram equivocadas e se ela constituiu-se, verdadeiramente na mais pretensiosa editora da indústria, ainda assim conseguiu produzir material de qualidade, merecendo um lugar garantido na história dos quadrinhos... Tá Falado! Roberto Guedes é autor do livro Quando Surgem os Super-Heróis
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The Cougar
Iron Jaw, por Neal Adams
 
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